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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

1 de SETEMBRO de 1974

Faz hoje precisamente 36 anos que JACQUES BREL chegou à ilha do Faial.
1 de Setembro de 1974.
Chegou no seu iate Askoy na companhia da filha FRANCE BREL e da companheira MADDLY BAMY.
Nos dias em que esteve no Faial confraternizou com a família DECQ MOTA. Na foto, hoje revelada aqui em primeira mão, Brel e Maddly num desses momentos de confraternização à beira mar, no Varadouro.



Os meus agradecimentos ao Senhor FILOMENO BICUDO pela cedência da fotografia.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

DR. DECQ MOTA

Em 1999 fiz para a RTP/Açores um programa para celebrar os 25 anos da passagem de Jacques Brel pela Ilha do Faial. Este programa, com texto de Victor Rui Dores e imagem e montagem de Mário Botelho, recorria a intervenções de pessoas que reconheceram Brel. No entanto, a intervenção mais importante foi a do Doutor Decq Mota que conta toda a história do seu encontro com o cantor belga, fala dos dias dessa permanência na ilha e até da correspondência trocada depois da partida.
O pequeno depoimento que publico hoje é um excerto da entrevista que fizemos com o Dr.Decq Mota, em 1999, na sua casa do Varadouro, onde Brel também esteve 25 anos antes.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (4)

Carta a Jacques Brel (conclusão)

Aqui a cidade da Horta também já não é o que era. Três décadas depois, temos mais automóveis e menos gente. Mais funcionários públicos e menos povo. Mais bancos e menos casas de espectáculo. Mais crédito e menos dinheiro... Só o Pico à nossa frente é que continua a ser infinitamente belo!
E temos agora uma Marina onde cabem todos os iates do mundo. O nosso porto continua abrigado e nós continuamos a ser hospitaleiros e cosmopolitas. Só que, “hélas”, a nossa hospitalidadezinha é uma forma de escondermos o nosso provincianismo paroquial... E o nosso cosmopolitismo rima com o nosso ruralismo pequeno-burguês. À bon entendeur...
E no entanto, existimos e resistimos nestas ilhas que te encantaram. Dos amigos que por cá fizeste, só o Othon Silveira e o José Azevedo (o “Peter”) é que infelizmente já não pertencem ao mundo dos vivos. Os restantes estão bem, na graça do “Bon Dieu”. O dr. Decq Mota, se bem que recolhido, é o mesmo “gentil homme” que tão bem conheceste. O filho do “Peter” (que era um fedelho quando cá estiveste) é hoje um homem de barba rija e está a imprimir uma nova dinâmica empresarial ao bom nome deste Café. O João Carlos Fraga continua a ser aquela paz de alma que conhece todos os barcos e todos os portos do mundo.
Tenho tido boas notícias da tua filha France, que, há 35 anos impressionou de tal forma o nosso amigo Jorge Dinis, que ele ainda hoje se lembra de como ela andava vestida, imagina... Nós, ilhéus, somos assim. O que de bom vem de fora não nos escapa.
Para sempre guardarei o teu retrato no fundo do meu espelho.
Adeus, meu doce, meu terno, meu maravilhoso amigo!
Toma juízo, não fumes tanto e volta depressa! Um grande abraço de mar!

Victor Rui Dores


Horta (anos 60)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (2)

Carta a Jacques Brel (continuação)

A verdade é que sempre te admirei e não tenho problema nenhum em te considerar um génio! Porque foste um criador, não um imitador; um poeta, não um versejador. Fizeste da palavra uma arma de arremesso e da música um hino ao amor. Não cedeste, nem te vergaste a coisa nenhuma. Não transigiste com o que era fácil. Desafiaste os poderes. Minaste os políticos. Derrubaste muros de silêncio. Andaste, meu sacana, a brincar com a tropa e com a Igreja e com outras coisas sérias... Zombaste dos burgueses, irritaste os conservadores, gozaste “les flamandes”, inquietaste as senhoras de bem e deste porrada nos cretinos, nos imbecis e nos idiotas... E denunciaste a guerra, a intolerância e a hipocrisia dos homens. E lutaste sempre pela paz, pela liberdade e pela justiça.
Agora sei que o teu coração sangrou pelos infortúnios do mundo. Tu, o controverso, o arrebatado e, por vezes, o violento, fizeste da amizade um padrão de vida. A tua bondade, o teu altruísmo e a tua generosidade não tinham tamanho. Por isso cantaste a dor e a mágoa de todos nós. Cantaste o teu triste e pluvioso Pays bas, revisitaste a tua infância, rasgaste o peito com o Ne me quitte pas, dançaste o Tango fúnebre da tua morte anunciada e a Valse à mille temps da tua bulimia de viver.
Cá por mim não me importava nada de ter sido teu amigo. Para contigo acender cigarros na noite e ser, como tu, um “voyageur perdu”. Sim, daria tudo para viajar contigo para os portos de Amsterdam e do mundo inteiro. Festejar a vida e o amor! Conhecer uma ou outra mulher “belle et cruelle”. Ter-te a meu lado a beber quantidades industriais de cerveja e dedilhar na tua guitarra canções dos nossos 20 anos... Aprender contigo a rimar “tendresse” com “tristesse”, “putain” com “chagrin”, “nuage” com “voyage”, “frontiére” com “misére”...
Acima de tudo, gostaria de envelhecer contigo, meu bom Jacques, e, tal como tu, gritar aos quatro ventos: “Quand je serai vieux je serai insuportable”...
Ainda hoje, Brel, sinto uma grande emoção quando oiço a tua voz, tão viva como dantes. Ainda hoje te vejo como um trovador, um Quixote, um sonhador, um poeta! Um poeta com um coração imenso. Um poeta que interpretava a palavra certeira e o silêncio magoado, com gestos cénicos e dançados... E as tuas mãos, Brel, as tuas mãos enormes afagavam os versos e eram a raiva, a ironia, o sarcasmo, a ternura...

(continua)

Horta, Anos 60

terça-feira, 20 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (1)

Do meu amigo Victor Rui Dores vou publicar uma carta, endereçada a Brel, nos 35 anos da passagem do cantor pela Horta. Dada a extensão da mesma vou reparti-la por 4 publicações.

Peter Café Sport, 5 de Outubro de 2009
Meu caro Jacques Brel

Neste espaço de todos os reencontros, sentado à mesa onde tu um dia cantaste, escrevo-te esta carta, com os olhos postos no “gin”, a sede na cerveja e a memória em ti. E isto porque fez este ano 35 anos que, a bordo do teu “Askoy”, aportaste à Horta acompanhado da tua filha France e da tua companheira Maddly.
Nessa altura, eu ainda não tinha fixado residência nesta cidade, senão, garanto-te, ter-te-ia aberto a porta da minha casa e o meu melhor whisky.
Acontece que tenho um amigo chamado Sérgio Luís, engenheiro, artista e teu admirador profundo, que de há muito buscava um pretexto para te homenagear. Que é como quem diz: reunir os amigos, beber uns copos e falarmos de ti, da tua vida, da coragem dos teus versos e da força da tua música.
A ideia concretizou-se. Após contactos estabelecidos com aqueles que, por estas paragens, te viram e te conheceram, indagámos lembranças, memórias e arquivos, reconstituímos os teus passos por esta ilha e, numa realização da RTP/AÇORES, levámos a cabo um trabalho intitulado Brel no porto da Horta.
Deixa-me que te diga que foi a partir dos versos das tuas canções que me iniciei na aprendizagem da língua francesa
Sabes, às vezes, tenho saudades tuas – eu que nunca te conheci. Mas porque tenho todos os teus discos, e porque vi todos os teus filmes, e porque colecciono todas as tuas fotos, e porque li todas as tuas entrevistas, tenho a impressão, meu caro Brel, que somos velhos amigos, se não mesmo “compagnons de route”...

(Continua)


Horta, anos 60

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

25 ANOS DEPOIS...

Em 1999, 25 anos depois da passagem de Jacques Brel pela ilha do Faial, apresentei à RTP Açores um projecto para um programa de televisão sobre aquele acontecimento. Pedi a colaboração do meu amigo Victor Rui Dores para escrever um texto e depois, sobre este texto, idealizámos e realizámos o programa.
Fizemos uma ante-estreia a 6 de Setembro, no Café Peter, para amigos, colaboradores e fãs de Brel e 4 dias depois a RTP/A transmitiu o programa. Tinha a duração de 25 minutos e chamava-se "BREL NO PORTO DA HORTA".

Sobre o programa "BREL NO PORTO DA HORTA" voltarei a publicar nos próximos dias mais factos.

sábado, 19 de setembro de 2009

BREL NA ILHA DO FAIAL - 1974

Fez ontem, dia 18, 35 anos que Brel deixou o porto da Horta com rumo à Madeira. Tinha chegado à ilha do Faial no dia 1 de Setembro a bordo do Askoy, na companhia da filha France e da amiga Maddly.
Dias depois recebeu a notícia da morte do seu amigo Jojo e regressou a Paris de avião, via Ilha Terceira, deixando o barco ao cuidado da filha e da amiga. Regressou ao Faial a bordo de um Jet Lear, propriedade de um milionário suíço que lhe deu boleia para os Açores.

A notícia que se segue vinha publicada no diário local “O Telégrafo”, de 17 de Setembro, e é bastante confusa, dado o pouco conhecimento que se tinha de Jacques Brel por estas paragens.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

JACQUES BREL NA ILHA DO FAIAL

Jacques Brel , o mais francês dos cantores belgas, ou mais belga dos cantores franceses, passou pela Horta em Setembro de 1974.
É sobre essa curta estada que eu vos vou falar.
Brel Esteve nos Açores, não na qualidade de cantor, mas, na de iatista. Em Fevereiro daquele ano, ele tinha comprado um veleiro com a intenção de dar a volta ao mundo em 3 anos. Em 24 de Julho partiu de Anvers, na Bélgica, escalou as ilhas Scily , no sul da Inglaterra, e no primeiro dia do mês de Setembro ancorou o seu barco, de nome Askoy, na baía da Horta.
Acabado de chegar, recebe de Paris a notícia que o seu grande amigo Jacques Pasquier (Jojo) falecera vítima de cancro. Brel segue de imediato no navio Ponta Delgada para a ilha Terceira, e de lá apanha um avião para Paris, para assistir ao funeral do amigo no dia 3 de Setembro.
Entretanto, na Horta, ficam a filha France Brel e a amiga do cantor, Maddly Bammy, a tomar conta do barco.
Brel regressa dias depois aos Açores, no avião particular de um amigo que lhe deu uma boleia até ao Faial. Mas, regressa adoentado, e consegue que o Doutor Luís Decq Mota, médico de ascendência belga, o vá ver a bordo do Askoy. Trata-se de uma gripe.
Porém, estabelece-se uma amizade entre os dois homens, e Jacques Brel acaba por passear pela ilha do Faial na companhia da família Decq Mota.


Visita a oficina do artesão de scrimshaw Oton da Silveira e frequenta o Café Peter.
Deixa o Porto da Horta a 18 de Setembro, rumo à Madeira, e depois atravessa o Atlântico com destino ao Canal do Panamá.
Entretanto, o que se pensava ser uma gripe, piorou, e obrigou o cantor a regressar à Europa. Em Paris foi-lhe detectado um tumor num pulmão.
Brel já não fez a volta ao mundo. Depois de operado, retomou a viagem marítima e levou o Askoy até às Ilhas Marquesas, em pleno Oceano Pacífico. Lá, viveu mais 4 anos, e acabou por falecer em Outubro de 1978. O seu corpo jaz ao lado do de Gauguin, numa das ilhas daquele arquipélago.
Brel, quando deixou os palcos, com 38 anos de idade e no apogeu da fama, fê-lo porque não queria envelhecer à frente do público e porque não se queria tornar no velho cantor cabotino que é aplaudido por deferência. Quando, com 45 anos de idade, se meteu num barco para dar a volta ao mundo, fê-lo para estar muito longe dos oportunistas, dos falsos amigos e dos jornalistas, que não o deixavam em paz. Depois de uma vida de trabalho intenso e esgotante, Brel só buscava o sossego e o isolamento. Como a doença lhe interrompeu o sonho da circum-navegação, optou por ficar a viver numa distante ilha do Oceano Pacífico, onde ninguém o conhecia.
Jacques Brel só não ficou na Horta porque estava demasiado perto da Europa.
No Faial corria o risco de perder a privacidade que ele procurava desesperadamente.

Nota: Fotografia cedida por Filomeno Bicudo