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quarta-feira, 7 de julho de 2010

MENSAGEM


Do meu amigo e “compagnon de route” Victor Rui Dores (agora numa fase Manuel de Arriaga) recebi esta mensagem:

Caro Sérgio
O teu blogue continua a despertar o meu interesse e a minha atenção e, diariamente, saio das canções de Brel sempre mais conciliado e enriquecido com este rebelde apaixonado.
Fui ver “Brel nos Açores”, no Teatro Faialense. Apenas isto: um espectáculo vertiginosamente belo e uma interpretação avassaladora do Dinarte Branco.
Um abraço de mar!
Victor Rui Dores

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (3)

Carta a Jacques Brel (continuação)

Fazes-nos falta, Jacques Brel. Por isso queremos manter-te vivo a cantar as tuas canções. Tu próprio o disseste: “A canção é um acto de amor, um acto de ternura”.
Fazes-nos falta, porque andamos carenciados de sonho, de amor e de ternura.
Em vez disso, andamos para aqui, em banho-maria, a viver a vida pardacenta, entre o silêncio e a solidão. À espera de alguma coisa que nunca acontece. À espera de um aumento de ordenado e à espera de D. Sebastião no dorso de uma baleia. À espera de ver Deus na televisão e à espera das bem-aventuranças da União Europeia... Ou “aguardando um raiozinho de socialismo”, como escreveu, aqui há uns anos, o poeta Marcolino Candeias.
Ah, e se tu soubesses o que, musicalmente, por cá se passa... Se eu te falasse no “marketing” discográfico, no individualismo desenfreado, na ganância do lucro, tu não acreditarias. Se eu te dissesse que a música agora também serve para encher chouriços, ou que a qualidade deixou de interessar, ou que a maior parte dos cantores de hoje canta fora de tom, tu certamente mandavas-me passear. Se eu te referisse que a cultura deixou de ser um acto de espírito e de imaginação humana. Se eu te falasse da música “light” que por aí anda à solta... Ah, como ficarias desgostoso se soubesses que hoje, a nível planetário, andamos culturalmente colonizados pelos americanos e por outros imbecis contentinhos...
Quando cá estiveste, há 35 anos, a revolução de Abril ainda estava na rua. Chegámos a acreditar em manhãs radiosas, porque “foi bonita a festa, pá”, como cantou, do outro lado do mar, o nosso amigo Chico. Mas hoje, meu caro, vivemos de resignações televisivas e de outros futebóis e só queremos que “não nos falte o dinheiro para o bife”... (Lembras-te do Zeca Afonso?).
“Em Portugal o mal é ancestral”, escreveu um poeta português que muito te admirou e até copiou alguns dos teus versos: José Carlos Ary dos Santos. E houve até um cantor que, durante algum tempo, pretendeu ser o Brel português: Fernando Tordo… Mas a tua voz sempre foi única, exclusiva, inimitável.
(continua)

Horta (anos 60)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (2)

Carta a Jacques Brel (continuação)

A verdade é que sempre te admirei e não tenho problema nenhum em te considerar um génio! Porque foste um criador, não um imitador; um poeta, não um versejador. Fizeste da palavra uma arma de arremesso e da música um hino ao amor. Não cedeste, nem te vergaste a coisa nenhuma. Não transigiste com o que era fácil. Desafiaste os poderes. Minaste os políticos. Derrubaste muros de silêncio. Andaste, meu sacana, a brincar com a tropa e com a Igreja e com outras coisas sérias... Zombaste dos burgueses, irritaste os conservadores, gozaste “les flamandes”, inquietaste as senhoras de bem e deste porrada nos cretinos, nos imbecis e nos idiotas... E denunciaste a guerra, a intolerância e a hipocrisia dos homens. E lutaste sempre pela paz, pela liberdade e pela justiça.
Agora sei que o teu coração sangrou pelos infortúnios do mundo. Tu, o controverso, o arrebatado e, por vezes, o violento, fizeste da amizade um padrão de vida. A tua bondade, o teu altruísmo e a tua generosidade não tinham tamanho. Por isso cantaste a dor e a mágoa de todos nós. Cantaste o teu triste e pluvioso Pays bas, revisitaste a tua infância, rasgaste o peito com o Ne me quitte pas, dançaste o Tango fúnebre da tua morte anunciada e a Valse à mille temps da tua bulimia de viver.
Cá por mim não me importava nada de ter sido teu amigo. Para contigo acender cigarros na noite e ser, como tu, um “voyageur perdu”. Sim, daria tudo para viajar contigo para os portos de Amsterdam e do mundo inteiro. Festejar a vida e o amor! Conhecer uma ou outra mulher “belle et cruelle”. Ter-te a meu lado a beber quantidades industriais de cerveja e dedilhar na tua guitarra canções dos nossos 20 anos... Aprender contigo a rimar “tendresse” com “tristesse”, “putain” com “chagrin”, “nuage” com “voyage”, “frontiére” com “misére”...
Acima de tudo, gostaria de envelhecer contigo, meu bom Jacques, e, tal como tu, gritar aos quatro ventos: “Quand je serai vieux je serai insuportable”...
Ainda hoje, Brel, sinto uma grande emoção quando oiço a tua voz, tão viva como dantes. Ainda hoje te vejo como um trovador, um Quixote, um sonhador, um poeta! Um poeta com um coração imenso. Um poeta que interpretava a palavra certeira e o silêncio magoado, com gestos cénicos e dançados... E as tuas mãos, Brel, as tuas mãos enormes afagavam os versos e eram a raiva, a ironia, o sarcasmo, a ternura...

(continua)

Horta, Anos 60

terça-feira, 20 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (1)

Do meu amigo Victor Rui Dores vou publicar uma carta, endereçada a Brel, nos 35 anos da passagem do cantor pela Horta. Dada a extensão da mesma vou reparti-la por 4 publicações.

Peter Café Sport, 5 de Outubro de 2009
Meu caro Jacques Brel

Neste espaço de todos os reencontros, sentado à mesa onde tu um dia cantaste, escrevo-te esta carta, com os olhos postos no “gin”, a sede na cerveja e a memória em ti. E isto porque fez este ano 35 anos que, a bordo do teu “Askoy”, aportaste à Horta acompanhado da tua filha France e da tua companheira Maddly.
Nessa altura, eu ainda não tinha fixado residência nesta cidade, senão, garanto-te, ter-te-ia aberto a porta da minha casa e o meu melhor whisky.
Acontece que tenho um amigo chamado Sérgio Luís, engenheiro, artista e teu admirador profundo, que de há muito buscava um pretexto para te homenagear. Que é como quem diz: reunir os amigos, beber uns copos e falarmos de ti, da tua vida, da coragem dos teus versos e da força da tua música.
A ideia concretizou-se. Após contactos estabelecidos com aqueles que, por estas paragens, te viram e te conheceram, indagámos lembranças, memórias e arquivos, reconstituímos os teus passos por esta ilha e, numa realização da RTP/AÇORES, levámos a cabo um trabalho intitulado Brel no porto da Horta.
Deixa-me que te diga que foi a partir dos versos das tuas canções que me iniciei na aprendizagem da língua francesa
Sabes, às vezes, tenho saudades tuas – eu que nunca te conheci. Mas porque tenho todos os teus discos, e porque vi todos os teus filmes, e porque colecciono todas as tuas fotos, e porque li todas as tuas entrevistas, tenho a impressão, meu caro Brel, que somos velhos amigos, se não mesmo “compagnons de route”...

(Continua)


Horta, anos 60

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

25 ANOS DEPOIS...

Em 1999, 25 anos depois da passagem de Jacques Brel pela ilha do Faial, apresentei à RTP Açores um projecto para um programa de televisão sobre aquele acontecimento. Pedi a colaboração do meu amigo Victor Rui Dores para escrever um texto e depois, sobre este texto, idealizámos e realizámos o programa.
Fizemos uma ante-estreia a 6 de Setembro, no Café Peter, para amigos, colaboradores e fãs de Brel e 4 dias depois a RTP/A transmitiu o programa. Tinha a duração de 25 minutos e chamava-se "BREL NO PORTO DA HORTA".

Sobre o programa "BREL NO PORTO DA HORTA" voltarei a publicar nos próximos dias mais factos.