quarta-feira, 7 de abril de 2010

LES TIMIDES



Não existe gravação em estúdio desta canção. A única gravação disponível é de um espectáculo no Olympia em 1964.
Se Brel não tivesse existido nunca os tímidos teriam tido a sua canção. Uma canção com uma melodia irónica mas ao mesmo tempo terna. Uma canção com um texto sintético e ao mesmo tempo dramático.
Sobre a timidez Jacques Brel dizia: “ Sou bastante tímido, mas isso não tem nada a ver com o facto de cantar para duas mil ou vinte mil pessoas. Todas essas pessoas que me conhecem dos espectáculos e da televisão, vêem-me sempre com um ar grave e então pensam “mas que tipo arrogante, que tipo vaidoso”. Mas se eu fosse o farmacêutico da esquina ninguém se ia importar com isso, ninguém ligava nenhuma…”.
Brel não gostava de ser considerado um bicho raro, metido numa jaula onde as pessoas vinham para o ver, para lhe fazer perguntas sobre isto e aquilo. Ele adorava o confronto. Gostava de estar no jogo em igualdade de circunstâncias com o interlocutor. No palco usava a provocação e a ironia para esconder a timidez.

OS TÍMIDOS

Os tímidos, torcem-se, contorcem-se, saltitam, enroscam-se, enrugam-se, sonham ser coelhos... Pouco importa de onde saem, são folhas mortas levadas pelo vento à frente das nossas portas... Dir-se-ia que transportam uma mala em cada mão...

Os tímidos vão pela sombra, a sombra triste da sua sombra… Só a penumbra sabe dos seus pudores orientais... Eles franzem-se, empalidecem, amarelecem, coram, ruborizam, ficam vermelhos, com uma mala em cada mão...

Mas os tímidos, numa noite de audácia, à frente do espelho, imaginando o espaço, metem o cabedal e...“Afastem-se! Vamos Paris, aguenta-te!!!... E viva a Gare de St Lazare !!!” Mas, perdem-se, assustam-se, fogem e regressam a casa com uma mala em cada mão...
Os tímidos, quando sofrem por causa de uma Elvira, suspiram, desejam coisas que desejam dizer, mas que não ousam de maneira nenhuma... E as suas amantes, mais entendidas em copos que em carinhos, uma noite, deixam-nos de cu para o ar, com um mala em cada mão...

Os tímidos, então, envelhecem, acabam, encolhem. E quando deslizam para os abismos, quero dizer, quando morrem, não se atrevem a dizer nada, a nada maldizer, não ousam estremecer, não ousam sorrir... Somente um suspiro... E morrem com uma mala sobre o coração...

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