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domingo, 19 de fevereiro de 2012

UMA VIDA NOS BASTIDORES



UNE VIE EN COULISSES  é um livro escrito pelo empresário de Jacques Brel - CHARLEY MAROUANI - e editado em 2011 pela Fayard. É a seguinte  a apresentação do editor:
Invisível para o público, escondido nos bastidores, ele foi responsável pelos seus artistas que no palco eram o centro das atenções. Centenas de horas vigilante. Dias, meses, anos. E assim foi ganhando a amizade de Jacques Brel, Barbara e muitos outros.
Nascido em Sousse, na Tunísia, de um pai que exercia a peculiar profissão de “provador” de azeite, Charley Marouani também vai “provar” algumas profissões (de fiel de armazém a fotógrafo) antes de se juntar ao seu tio Félix, empresário em Paris.
Jacques Canetti, incontornável produtor da música francesa do século passado, cede a Félix e Charley os nomes de três novatos de quem ele não tinha tempo de se ocupar. Entre eles, JACQUES BREL. Charley, emocionado por uma das canções do novato Brel, disse simplesmente: Eu escolho Brel.
Durante mais de vinte anos os dois homens manterão a fiel relação empresário/artista. E será Charley Marouani, que conduzirá o Grand Jacques à sua última morada, nas Ilhas Marquesas. Entretanto, Charley Marouani geriu as carreiras de um número espantoso de artistas: Salvador, Bécaud, Vartan, Hallyday, Greco, Reggiani, Dassin, Nougaro… e muitos outros. Depois de ter usado a estrela amarela durante a guerra e descarregado camiões, é ele quem vai levar Salvatore Adamo ao Carnegie Hall. Retomando um dos seus próprios versos, Jacques Brel teria dito que “ele forçou o destino”. O nativo da Tunísia diria simplesmente mektoub… (estava escrito).”

quinta-feira, 8 de julho de 2010

SUR LA PLACE



Esta canção teve três versões. Em 1953, em Bruxelas, depois em 1954 com arranjos de André Gassi e finalmente em 1961 com a orquestra de François Rauber. Sur la place foi editada num EP (45 rpm) e precedeu uma digressão de Verão organizada por Canetti.
No cartaz desta digressão o nome de Brel figurava depois dos nomes de Sidney Bechet, Philippe Clay et Dario Moreno que, 14 anos depois seria o Sancho Pança em Bruxelas, ao lado de um Brel-Don Quixote que já não combatia os moinhos do anonimato.
Quando questionavam Brel sobre os seus textos, se eram poesia ou simples versos cantáveis, ele dizia que não era poeta. Era um artesão de palavras. Ele estava constantemente a inventar-se nos velhos solitários, no moribundo, no tipo que dizia Ne me quitte pas, no bêbado que se chamava Jef. Era como se Brel tivesse uma ilha e lá fizesse crescer as plantas, os pássaros, os homens… Ou a rapariga que dançava no largo num dia de muito calor. Sur la place, conta a história dessa rapariga.

No largo (1953)

No largo aquecido pelo sol uma rapariga pôs-se a dançar... Rodopia, parecendo a bailarina duma antiga caixa de música... Na cidade faz um calor tórrido. Homens e mulheres, estão acaçapados e observam pelas vidraças esta rapariga que dança ao meio-dia...
Há certos dias que parecem uma labareda nos nossos olhos...
À igreja onde eu ia, recorria-se ao bom Deus, os apaixonados recorrem ao amor, o mendigo apela à caridade, o dia apela ao sol e o homem de bem apela à bondade...

No largo quente, de atmosfera vibrante, onde nem sequer aparece um cão, ondulante como um junco, a rapariga saltita, e vai e vem. Nem guitarra, nem tamborim, para acompanhar a sua dança... É batendo as palmas que ela marca o compasso...

No largo, onde tudo está tranquilo, a rapariga pôs-se a cantar, e o seu canto paira sobre a cidade como um hino de amor e de bondade... Mas, sobre a cidade faz muito calor, e para não ouvir a canção os homens fecham as janelas, como uma porta que se fecha entre os mortos e os vivos...

Assim, certos dias parecem um labareda nos nossos corações…
Mas nós nunca deixamos brilhar a sua luz...
Nós tapamos as orelhas e cobrimos os olhos...
Não gostamos de acordar o nosso coração já velho...

No largo um cão uiva ainda, porque a rapariga já se foi embora… E, como um cão uivando à morte, lastimam os homens o seu destino...


segunda-feira, 14 de junho de 2010

IL Y A



Em 11 de Março passado falei AQUI do primeiro disco de Brel gravado em 1953 e que continha as canções LA FOIRE e IL Y A. Hoje publico a tradução da segunda canção – Il y a – que, segundo Olivier Todd, um dos mais famosos biógrafos do cantor, “é uma espécie de nata batida de clichés sobre um pudim de banalidades neo-realistas”. Tal como disse antes, este disco foi a catapulta de Brel para os palcos. Nesse ano de 1953 ele deixa a fábrica de cartonagens da família, e começa uma nova vida, pela mão de Jacques Canetti, responsável artístico da Philips, em Paris.

(1953)

Há tanto nevoeiro nos portos, pela manhã, que não há raparigas nos corações dos marinheiros...
Há tantas nuvens a viajar lá por cima, que não há pássaros...
Há tantas lavouras, há tantas sementeiras, que não há alegria, não há esperança...
Há tantos ribeiros, há tantos rios que não há cemitérios...

Mas há tanto azul nos olhos da minha amada, nos seus olhos há tanta vida.
Nos seus cabelos há um pouco de eternidade, e há tanta alegria nos seus lábios.

Há tanta luz nas ruas da cidade que não há crianças infelizes...
Há tantas canções perdidas no vento que não há crianças...
Há tantos vitrais, há tantos campanários que não há vozes para nos dizer que nos amam...
Há tantos canais que atravessam a terra que não há rugas na face das mães...


quinta-feira, 11 de março de 2010

LA FOIRE



Em 17 de Fevereiro de 1953, Jacques Brel grava o seu primeiro disco. Um disco em 78 rotações por minuto, edição de autor, com duas canções: La foire, e Il y a. Vendeu naquela altura duzentos exemplares. Um exemplar deste disco chegou a Paris, às mãos do descobridor de talentos Jacques Canetti, que ao ouvir a gravação ficou entusiasmado e chamou Brel a Paris para uma audição. Neste primeiro disco Jacques Brel usou o pseudónimo BEREL, um anagrama de REBEL - rebelde.

A feira (1953)
Gosto da feira, onde, por três vinténs, podemos pôr a cabeça à roda num carrossel de cavalos ruços ao som duma musiquinha tola...
As luminárias, alinhadas aos pares como sobrancelhas de gigante, lançam ao céu salpicos de luz... As tômbolas giram, giram sem tréguas, levando todo o nosso dinheiro, e nós damos um pouco de sonho para que os homens fiquem felizes...
Cheira à gordura onde dançam as batatas fritas, cheira a batatas fritas embrulhadas em papel. Cheira a farturas que se comem avidamente, cheira aos homens que as comeram... Por todo o lado vejo as corridinhas dos namorados que vão dançar.
Eu não vou dançar de certeza... A minha avó disse-me para eu ficar de pé atrás...
E assim que não há vinténs para pôr a cabeça à roda, no carrossel de cavalos ruços, ao som de uma musiquinha tola, vamos para casa, calmamente, olhando os céus, e perguntando simplesmente se não haverá nada melhor...