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sábado, 8 de maio de 2010

TITINE




A canção TITINE gravada por Jacques Brel em 1964 é uma adaptação de uma velha canção de 1917 (de Mauban e Bertal) mas que só ficou conhecida em 1936 quando Charlie Chaplin a usou no filme TEMPOS MODERNOS.
Originalmente no texto desta canção o seu autor limitava-se a “procurar a Titine que nunca mais encontrava”. Porém, Brel, bem ao seu estilo, deu a volta ao texto. E meteu-lhe os condimentos necessários para ficar uma canção breliana. Depois de muito procurar a Titine ao volante do seu Hispano, ele finalmente encontrou a sua amada, mas ela tinha mais que fazer do que ficar em casa a aturá-lo. Aturá-lo a ele, ao cão e aos doze filhos... e partiu. Foi ver um filme do Charlot.
O arranjo orquestral de François Rauber ajuda a construir esta cena a preto e branco, cujo protagonista é a figura trágico-cómica do marido traído que procura desesperadamente a mulher.

Titine (1964)

Encontrei a Titine, oh Titine, minha Titine que eu não encontrava! Encontrei-a por acaso a vender mata-borrão atrás de uma montra na Gare Saint Lazare. Disse-lhe, Titine, minha Titine, porque me deixaste? Porque partiste assim, sem um gesto, sem uma palavra? Foste ver um filme do Charlot ao Cinema Olympia. Já há trinta anos que te procurávamos por todo o lado, o meu Hispano e eu, gritando como loucos, atrás de ti, Titine...

Mas agora encontrei a Titine! A minha Titine que eu não encontrava... Procurei-a por todo o lado, do Gabão a Tonquim… Procurei-a em vão, do Chile ao Peru. E disse-lhe Titine, minha Titine, suplico-te, volta! Eu sei que mudaste, estás um pouco menos provocante, pois caminhas como o Charlot, e falas pelos cotovelos, mas enfim, é melhor que nada, quando se vive trinta anos, sozinho com um cão e doze filhos que andaram atrás de ti, Titine.... Titine, oh, minha Titine!

Mas agora encontrei a Titine! A minha Titine que eu não encontrava! Gostava que a vissem... Ela é toda em ouro, bem melhor que a Valentina, bem melhor que a Eleanora. Mas ontem quando lhe disse, Titine, minha Titine, será que ainda me amas? ela foi-se embora outra vez, assim, sem um gesto, sem uma palavra, foi ver um filme do Charlot ao cinema Olympia... E pronto, lá estamos nós, a procurá-la por todo o lado, o meu Hispano e eu, gritando como loucos, atrás da Titine... Titine, Oh, minha Titine !!!
E nós encontraremos a Titine, a minha Titine, e tudo se vai arranjar.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ROSA

Ao ritmo de um tango, Jacques Brel ironiza sobre a classe média e as suas aspirações sociais. Na canção Rosa, os papás e os padres dos colégios internos esforçam-se por formar seres uniformizados todos com o mesmo objectivo na vida: Serem melhores que os progenitores mesmo que tenham de caminhar cegamente por atalhos desconhecidos. O personagem desta canção, no entanto, é um cábula que fura o esquema, e frequenta o colégio por causa da sua prima Rosa. O latim e as suas declinações não são com ele, visto que sabe que nunca poderá vir a ser um Vasco da Gama. A canção é de 1962.

ROSA

Rosa, rosa rosam...Rosae, rosae, rosa... Rosae, rosae, rosas... Rosarum rosis, rosis.... É o mais velho tango do mundo, aquele que as cabecinhas loiras balbuciam numa roda quando aprendem as lições de latim... É o tango do colégio que caça os sonhos numa rede, e depois é um sacrilégio se não se sair malicioso... É o tango dos anciãos, que vigiam com olhar severo os Júlios e os Prósperos, que serão a França de amanhã...

É o tango dos marrões, cheios de borbulhas e de agasalhos a cobrir o coração que já está frio... É o tango dos cábulas que declinam de desgosto e que serão farmacêuticos porque o papá não chegou a ser... É o tempo em que eu era o último, porque neste tango rosa rosae eu já me inclinava de preferência para a minha prima Rosa...

É o tango das passeatas, aos pares, sozinhos, debaixo das arcadas, cercados de padres e de alcaides, que nos protegiam dos porquês... É o tango da chuva no pátio, o espelho de um charco sem amor que me fez compreender um belo dia que eu nunca seria Vasco da Gama... Mas, é também o tango desse tempo bendito, onde por causa de um beijinho demasiado pequeno na clareira de um domingo, corou a minha prima Rosa...

É o tango daquele tempo em que eu tinha zeros, uns finos, outros grossos. Com eles fazia túneis para o Charlot e auréolas para S.Francisco... É o tango das recompensas que iam para aqueles que tinham a sorte de aprender, desde a infância, tudo aquilo que nunca lhes serviu para nada... Mas, é também o tango que nos faz lamentar, que por uma vez, o tempo se compra, e que nos apercebemos, estupidamente que a Rosa tem espinhos... Rosa, rosa rosam... Rosae, rosae, rosa... Rosae, rosae, rosa...Rosarum rosis, rosis...


ROSA na versão ao vivo...


ROSA na versão video clip...