domingo, 26 de junho de 2011

L'Accordéon de la vie



Mais uma canção da juventude do Grand Jacques e que pertence ao lote gravado para a BRT (Rádio belga flamenga com sede em Hasselt em Agosto de 1953). Regista-se aqui talvez o seu primeiro neologismo: do substantivo acordeão ele cria o verbo a “acordeonar”. Anos mais tarde inventa a “voz bandoneante” (de bandoneon), as beatas que “cemiteriam” (de cemitério) ou Bruxelas que “bruxeliava”.


O acordeão da vida

Velho músico faz-me sonhar até de manhã
Fica curvado sobre o teu acordeão
O teu acordeão todo branco faz sonhar,
Faz valsar, faz dançar os meus vinte anos…
Velho músico faz-me sonhar
Nos quatro cantos da vida
E para que a possamos perdoar
A vida põe cabelos grisalhos
E para nós acordeona

Velho músico faz-me amar até de manhã
Fica curvado sobre o teu acordeão
O teu acordeão todo azul faz sonhar,
Faz valsar, os nossos dois corações apaixonados
Velho músico faz-me amar
Nos quatro cantos do amor
E para que o possamos perdoar
A vida vem-nos dizer bom dia
E para nós acordeona

Velho músico faz-me chorar até de manhã
Fica curvado sobre o teu acordeão
O teu acordeão todo negro faz chorar,
Faz sonhar, os nossos dois corações sem esperança
Velho músico faz-me chorar
Nos quatro cantos da vida
E para se vingar de nós
A vida põe-nos os seus cabelos grisalhos
Para nos dizer que não se importa…


sábado, 25 de junho de 2011

Suis l'ombre des chansons



Eu sou a sombra das canções (1953)

Eu sou a sombra das canções
Que tu queres esquecidas
Para cantar as lições
Dum mundo cansado
Eu sou a sombra das canções
Que poderia ter levado
Ao fundo da tua prisão
Um raio de luz
Todo vestido de negro
Eu sigo-te nos teus sonhos
O teus sonhos ilusórios
Onde o dia que nasce
Sem fé sem alegria se alcança

Eu sou a sombra do amigo
Que tu deixaste da mão
A mão que te servia
Para fazer os teus amanhãs
Eu sou a sombra do amigo
Que fazia que cada manhã
Para ti cantasse a vida
E se abrissem os caminhos
Todo vestido de negro
Eu sigo-te no deserto
Ou levo-te a esperança
De conquistar a terra
A criança terrível perde-se

Eu sou a sombra do amor
Que tu recusaste
Recusando todos os dias
A esperança do teu coração
Eu sou a sombra do amor
Que tu desperdiçaste
Desperdiçando os dias
Que são feitos para amar
Todo vestido de negro
Eu sigo-te na vida
A tua vida, onde todas as noites
Se lamenta e envelhece
O teu coração que morre de tédio

Eu sou a sombra de tudo isso
Que tu rejeitaste
No mais fundo de ti
Para não voltares a recordar
Eu sou a sombra de tudo isso
Dessa vida passada
Que amanhã tu e eu
Podemos recomeçar


sexta-feira, 24 de junho de 2011

À DEUX




Nesta canção da adolescência de Brel está uma ideia que viria a ser recriada em 1977 na magnífica composição "La Cathédrale". Catedrais com velas que navegam ao sabor do vento, aqui “para celebrar o amor” e em 1977 para rumar ao Pacífico.
O texto de "La Cathédrale" está AQUI.

À Deux

Tu, tu e eu
Tu e eu
A dois
Vamos construir catedrais
Para celebrar o nosso amor
Vamos guarnecê-las de velas
Que nos levarão em direcção ao dia
A dois, nós vamos oferecer a lua
Aos homens que não têm sorte
E vou desmanchar Saturno
Para fazer as nossas alianças
E agradeceremos à vida
De ter querido poupar-nos
Nós podemos mastigá-la, minha querida,
Sem jamais ter de cuspi-la
A dois!

Construiremos sobre os rios
As pontes feitas da nossa amizade
Para todos os homens da Terra
Para que os posssamos amar
E os teus sorrisos um a um
Vão salpicar a humanidade
Eu poderia erguer o Mundo
Antes de o mundo me deitar ao chão
Nós partiremos cada manhã
Para a aventura de um dia
Nós temos a vida nas nossas mãos
Mas temos que a projectar
A dois!

Vamos desenhar sobre a Terra
Caminhos pavimentados de sol
Vamos apagar as fronteiras
Porque todas as crianças são iguais
E histórias que lhes contamos,
Sem acreditar muito nelas,
A dois, vamos provar ao mundo
Que podemos torná-las reais
Os nossos corações estarão cheios de esperança
As cossas canções serão cantos de amor
Porque a dois nós teremos a sorte
De acreditar que estaremos cada dia
A dois!

Vamos construir catedrais
Para celebrar o nosso amor


quinta-feira, 23 de junho de 2011

CE QU'IL VOUS FAUT



O que vos faz falta (1953)

Vocês juventude louca
Que jogam jogos de tédio
Passado é o tempo da escola
Ouvi agora a minha filosofia

O que vos faz falta são as canções
Que a manhã vos porá nos lábios
O que vos faz falta quando o sol nasce
É que o amor cante a sua canção
O que vos faz falta são as ruas
Cheias de gritos de risos das crianças
O que vos faz falta é acreditar na Primavera
Que vos fará cantar nas ruas

Vocês gente sensata
Que a razão já cansou
Cansem-se a ser amáveis
E deixem-me dizer-vos

O que vos faz falta é serem loucos
Loucos pela vida e pelos seus caminhos
O que vos faz falta é pensar em nada
A fim de dia e noite ficar louco
O que vos faz falta são as casas
Feitas de alegria feitas de sol
O que vos faz falta são as maravilhas
Que se metem dentro de todas as casas

E tu minha menina
Se os teus olhos azuis ficarem cinzentos
E se eles não virem mais as andorinhas
É porque nunca disseste

O que te faz falta é o amor
O amor que vem abraçar os corações
O que te faz falta é um pouco de felicidade
A fim de manter o nosso amor
O que te faz falta, faz-nos falta sonhar
Sermos felizes amanhã
O que te faz falta é dar-me uma mão
Para que os dois nós possamos sonhar.


terça-feira, 21 de junho de 2011

C'EST BEAU LA VIE



Quando não há mais que o amor, que seria eu sem ti ? Duas crianças ao sol, mas também noite e nevoeiro, e muito mais... Por ocasião dos cinquenta anos da sua carreira, ISABELLE AUBRET revisita a sua vida com a publicação do livro C’EST BEAU LA VIE. (Ed. Michel Lafon, 248 pág. Maio 2011)
Incrível viagem que essa menina do norte da França, quinta de uma família de onze filhos, trabalhando numa fábrica aos catorze anos, tornou-se intérprete dos autores mais famosos do seu tempo. Devastada por dois acidentes terríveis que a baniram da cena durante vários anos, ela heroicamente recuperou, revivendo o sucesso, e impondo o seu desejo de renovação, aliando às suas doces canções, temas mais sérios . Nesta luta diária, onde sempre manteve um sorriso, ela pôde contar sempre com apoios muito queridos: Aragon, secretamente apaixonado, ia roubar as suas fotos nas lojas de discos; Brassens dava-lhe o braço para a levar do palco para seu camarim, quando ela não podia andar; Ferrat, seu irmão de alma, que compartilhou com ela "as ideias e as esperanças" até aos seus últimos momentos, e ela agora homenageia, tanto o trabalho quanto a sua memória e finalmente, Brel, fascinado ela sua coragem, dando-lhe para o resto da vida os direitos de autor da canção “Fanette”, (já falado neste blog AQUI).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

L'ORAGE



Mais uma canção da juventude de Brel. A léguas daquilo que viria a ser o verdadeiro JACQUES BREL.
"L’orage" faz parte de um lote de 23 canções gravado em Agosto de 1953 pelo jornalista Jef Claessens na Radio Hasselt.

A TEMPESTADE

O céu
O céu está carregado
De nuvens baixas
A chuva vai cair
Nas nossas mãos nos nossos braços
Nas nossas mãos nos nossos braços

O vento gritade de longe
O vento
Sua queixa ruidosa
Como um hino antigo
Que chora os mortos
Que chora os mortos

A chuva
A chuva é bonita
A chuva que resplandece
Tem como a minha querida
Um riso radiante
Um riso radiante

A onda
É a onda que se ergue
Do fundo à tona
A onda doce e loira
Cheiro de seara
Cheiro de seara

Os bichos
Os bichos fogem
Pelos prados e pelos caminhos
Os bichos fogem
Noé como estás longe
Noé como estás longe

As flores
As flores fecham o coração
Com as suas pétalas
Como se escondem as lágrimas
Nos olhos de uma mulher
Nos olhos de uma mulher

Os homens
Atrás dos tambores
De vidro polido
Escondem os seus amores
E escondem as suas vidas
E escondem as suas vidas

Estou com medo
Estou com medo da chuva
Estou com medo do vento
Estou com medo da vida
Oh, eu estou com medo mãe
Oh, eu estou com medo mãe


domingo, 19 de junho de 2011

LES DEUX FAUTEUILS



As personagens brelianas da comédia humana tomam o seu lugar: muito antes de "Les Vieux", ele retrata uns avós imaginários a partir da suas poltronas favoritas, encontradas todas estragadas no sótão. Esta é uma das primeiras canções de BREL que já aponta caminhos futuros na descrição dos tipos humanos, dos seus dramas e das suas vicissitudes. O sotaque flamengo usado no primeiro verso (j’ai rrretrrouvé /mon grrenier / Deux fauteuils vèrrts ) ou é involuntário ou anuncia também a dramatização de canções futuras...


AS DUAS POLTRONAS (1953)

Eu encontrei duas poltronas verdes
No meu sótão, todas estragadas
É a poltrona do meu avô
E a poltrona da minha avó

Uma está gasta até ao fio
Muitas vezes eles dormiam embraçados
E é pesada com o suor que carrega
É a poltrona do meu avô

A outra é quase nova,
Apesar de algumas manchas prateadas
Nas costas e braços
A avó chorou muito nela

Éramos crianças e felizes
ainda os conhecemos amantes
Ternamente entrelaçando os dedos
Dizendo as palavras que tanto amamos

Eu encontrei duas poltronas verdes
No meu sótão, todas estragadas
É a poltrona do meu avô
E a poltrona da minha avó