domingo, 20 de junho de 2010

BREL NOS AÇORES (III)




Foi ontem, no Teatro Micaelense, a estreia de BREL NOS AÇORES.
Muito mais que o BREL ARTISTA em toda a sua dimensão, é-nos apresentada, de uma maneira natural mas tocante, a dimensão humana do HOMEM JACQUES.
Quem o faz é Dinarte Branco com as palavras que
Nuno Costa Santos entusiasticamente escreveu.
Quem conhece Brel só pelo Ne me quitte pas ou pela Valse à mille temps, ou quem o conhece por toda a sua obra, tem o imenso prazer de reencontrar neste espectáculo a memória de JACQUES BREL tal como ele era. Com toda a sua autenticidade, intensidade e dignidade.
Do espectáculo não vou contar nada para que vos fique a curiosidade de o ir ver.
No teatro S.Luiz , nos próximos dias 24, 25 e 26 , ou depois na Horta – Teatro Faialense - no dia 3 de Julho.

Pela minha parte um grande abraço de parabéns a toda a equipa.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

J'ARRIVE



JOSÉ SARAMAGO um dia, numa ENTREVISTA, quando lhe perguntaram qual era a sua ligação com a música, respondeu isto:
“Gosto de música, ouço-a continuamente. Os clássicos, claro, mas também cantores como Jacques Brel… ouça-se «Les Vieux» ou «J'Arrive»… "
Aqui está “J’arrive”.

Estou a chegar (1968)

De crisântemos em crisântemos as nossas amizades estão de partida. De crisântemos em crisântemos a morte enforca as nossas dulcineias. De crisântemos em crisântemos as outras flores fazem o que podem. De crisântemos em crisântemos os homens choram, as mulheres chovem...

Estou a chegar, estou a chegar... Mas, o que é que eu teria preferido? Uma vez mais arrastar os meus ossos até ao sol, até ao Verão, até à Primavera, até amanhã...?
Estou a chegar, estou a chegar... Mas, o que é que eu teria preferido? Uma vez mais ver se o rio é ainda rio, ver se o porto ainda é porto, e ver-me lá, ainda...
Estou a chegar... Estou a chegar, mas porquê eu, porquê agora, porquê já, e ir, aonde?...
Estou chegar, com certeza, estou a chegar, mas terei eu feito alguma coisa que não fosse “estar a chegar”?

De crisântemos em crisântemos, cada vez mais sozinho. De crisântemos em crisântemos, cada vez mais supranumerário...
Estou a chegar, estou a chegar, mas, o que é que eu teria preferido?... Uma vez mais apanhar um amor, como quem apanha um comboio, para não mais estar só, para estar bem, algures...
Estou a chegar, estou a chegar, mas, o que é que eu teria preferido? Uma vez mais encher de estrelas um corpo que treme e cai morto, queimado pelo amor, o coração em cinzas...
Estou a chegar, estou a chegar... Não és tu que te estás a adiantar, sou eu que me estou a atrasar...
Estou a chegar, estou a chegar, mas terei eu feito alguma coisa que não fosse “estar a chegar”?


quinta-feira, 17 de junho de 2010

P(O)UR BREL



Ao blog LA CHANSON DE JACKY, do meu amigo Rodolfo Guillo, fui buscar esta informação absolutamente em cima da hora!!!
Um espectáculo de homenagem a Jacques Brel está a acontecer neste momento no Thalia Theater em Hamburgo, Alemanha, e é interpretado por SASCHA MERLIN, ALEXANDER SIMON, e KERSTEN KENAN.
O espectáculo chama-se P(O)UR BREL! (um trocadilho que significa PURO BREL ou PARA BREL... Será que o LER DOCE LER já chegou à Alemanha?)

terça-feira, 15 de junho de 2010

CHICO BUARQUE




É publicada em Paris e Bruxelas, já há 11 anos, uma revista bilingue - BRAZUCA - que é voltada para os franceses e os belgas que se interessam pelo Brasil. O último número de Março/Abril é uma edição especial dedicada a CHICO BUARQUE.
Daniel Cariello e Thiago Araújo fizeram uma longa entrevista ao cantor que a certa altura fala de Jacques Brel:

A música francesa te influenciou de alguma maneira?
Eu ouvi muito. Nos anos 50, quando comecei a ouvir muita música, as rádios tocavam de tudo. Muita música brasileira, americana, francesa, italiana, boleros latino americanos. Minha mãe tinha loucura por Edith Piaf e não sei dizer se Piaf me influenciou. Mas ouvi muito, como ouvi Aznavour.
O que me tocou muito foi Jacques Brel. Eu tinha uma tia que morou a vida inteira em Paris. Ela me mandou um disquinho azul, um compacto duplo com Ne me quitte pas, La valse à mille temps, quatro canções. E eu ouvia aquilo adoidado. Foi pouco antes da bossa nova, que me conquistou para a música e me fez tocar violão. As letras dele ficaram marcadas para mim.
Eu encontrei o Jacques Brel depois no Brasil. Estava gravando Carolina e ele apareceu no estúdio, junto com meu editor. Eu fiquei meio besta, não acreditei que era ele. Aí eu fui falar pra ele essa história, que eu o conhecia desde aquele disco. Ele disse “é, faz muito tempo”. Isso deve ter sido 55 ou 56, esse disquinho dele. Eu o encontrei em 67. Depois muito mais tarde eu assisti a L’homme de la mancha, e um dia ele estava no café em frente ao teatro. Eu o vi sentado, olhei pra ele, ele olhou pra mim, mas fiquei sem saber se ele tinha olhado estranhamente ou se me reconheceu. Fiquei sem graça, pois não o queria chatear. Ele estava ali sozinho, não queria aborrecer. Mas ele foi uma figuraça. Eu gostava muito das canções dele. Conhecia todas.

Jacques Brel compôs uma das melhores descrições de sofrimento por amor, em “Ne me quitte pas”: “deixe-me ser a sombra da sua sombra, a sombra da sua mão, a sombra do seu cão”, mas acho que ninguém nunca retratou dor de amor como você fez em “Pedaço de mim”. De onde você tirou isso?
Era uma coisa muito violenta. Tem partes dessa música que eu não sei porque eu escrevi. Era o tempo de barra pesada, tempo de ditadura. É uma canção de amor, mas é uma canção de dor quase física, né? É letra de ditadura.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

IL Y A



Em 11 de Março passado falei AQUI do primeiro disco de Brel gravado em 1953 e que continha as canções LA FOIRE e IL Y A. Hoje publico a tradução da segunda canção – Il y a – que, segundo Olivier Todd, um dos mais famosos biógrafos do cantor, “é uma espécie de nata batida de clichés sobre um pudim de banalidades neo-realistas”. Tal como disse antes, este disco foi a catapulta de Brel para os palcos. Nesse ano de 1953 ele deixa a fábrica de cartonagens da família, e começa uma nova vida, pela mão de Jacques Canetti, responsável artístico da Philips, em Paris.

(1953)

Há tanto nevoeiro nos portos, pela manhã, que não há raparigas nos corações dos marinheiros...
Há tantas nuvens a viajar lá por cima, que não há pássaros...
Há tantas lavouras, há tantas sementeiras, que não há alegria, não há esperança...
Há tantos ribeiros, há tantos rios que não há cemitérios...

Mas há tanto azul nos olhos da minha amada, nos seus olhos há tanta vida.
Nos seus cabelos há um pouco de eternidade, e há tanta alegria nos seus lábios.

Há tanta luz nas ruas da cidade que não há crianças infelizes...
Há tantas canções perdidas no vento que não há crianças...
Há tantos vitrais, há tantos campanários que não há vozes para nos dizer que nos amam...
Há tantos canais que atravessam a terra que não há rugas na face das mães...


sábado, 12 de junho de 2010

DUAS NOTÍCIAS

Das Edições Jacques Brel recebi estas duas informações:

1. A cantora ANTONIA BOSCO vai dar um espectáculo no Théâtre du Lierre, em Paris, de 23 a 27 de Junho em homenagem a Brel. Chama-se “L’inaccessible étoile”. NESTE video ela fala da criação do espectáculo e canta um pequeno excerto da canção que lhe dá o nome.



2. Está quase a estrear no TEATRO MICAELENSE “BREL NOS AÇORES”, da autoria de NUNO COSTA SANTOS e com interpretação de DINARTE BRANCO.
19 de Junho às 21H30. Lá estaremos!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

NE ME QUITTE PAS (II)



Há muitas histórias ligadas à canção NE ME QUITTE PAS. Mas a que vou contar hoje deve ser provavelmente a mais inusitada.
Fui a um hospital fazer uma Colonoscopia e antes de entrar para a sala do exame falou-se de Jacques Brel. No momento da anestesia alguém me disse para eu pensar em coisas agradáveis tais como canções de Brel... mas não deu tempo porque adormeci logo.

Já no quarto, acordado e de exame feito, o enfermeiro confidenciou-me que o médico tinha cantado o NE ME QUITTE PAS durante toda a colonoscopia...
O médico – Professor NOBRE LEITÃO – confirmou-me depois que sim, que cantou, mas muito mal, porque a sua especialidade não é cantar.

Contou-me também que assistiu há 8 ou 9 anos, em Bruxelas, a um espectáculo ao ar livre, dedicado a Jacques Brel com projecção de imagens de espectáculos do cantor, em ecran gigante, acompanhadas de bailados. Presumo que seja o espectáculo de Maurice Béjart já AQUI falado neste blog.