quinta-feira, 22 de abril de 2010

BREL NOS AÇORES

A passagem de Jacques Brel pelos Açores em 1974 é o tema do espectáculo que o Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, estreia a 19 de Junho.
O mesmo espectáculo será apresentado cinco dias depois em Lisboa (Teatro S. Luiz) prevendo-se depois a sua apresentação na Horta, Faial, em Julho.
Esta produção própria do Teatro Micaelense, intitulada "Brel nos Açores", que tem por base uma narrativa escrita por NUNO COSTA SANTOS e tem o actor Dinarte Branco como única figura em palco, integra componentes sonoras e de imagem, pretendendo "recuperar a personagem do artista belga e os Açores" de 1974, altura em que Brel (1929-1978) escalou a ilha do Faial a bordo do seu iate Askoy.
A promoção do espectáculo, que resultou de uma parceria com a Câmara da Horta, surge integrada na programação do "Açores Região Europeia 2010".
A equipa de produção esteva na Horta nos passados dias 19,20 e 21 para recolher imagens, sons, depoimentos e cumplicidades...

Equipa de Produção de BREL NOS AÇORES (da esquerda para a direita)
Paulo Abreu– “Nessa altura não vou ter tempo, estou a fazer uma curta.”
Sérgio Gregório – “Isto vai ser à GRANDALHÃO.”
Nuno Costa Santos – “Vou me recolher...”
Dinarte Branco – “Calma, eu não sou o Brel!”
Inês Eva - “Isto nunca me aconteceu! Opá, não se riam.”

domingo, 18 de abril de 2010

L'OSTENDAISE



Um dia perguntaram a Jacques Brel se preferia ser músico ou poeta. Ele respondeu que gostaria de ter escrito quartetos de cordas, mas, por outro lado, também gostaria de ter escrito poesia ou romances. Assim, ficou-se pelo meio-termo e pôs-se a escrever canções o que lhe permitiu não ficar zangado nem com a música nem com a escrita. “Não fiquei a lamentar-me o resto da vida por ter falhado. Por não ter escrito um quarteto de cordas ou por não ter escrito um grande romance”.
Ostendaise é uma mulher de Ostende, porto belga no Mar do Norte.

A Ostendesa (1968)

Uma Ostendesa chora na sua cadeira; o gato sopesa o peso do seu amor... Em silêncio a sua tristeza dança, e os velhos pensam, cada um à sua maneira... Na cozinha, algumas vizinhas falam da China e de um regresso... Em Singapura, uma javanesa tornou-se cunhada da Ostendesa...

Há duas espécies de tempo... Há o tempo em que se espera e o tempo em que se tem esperança... Há duas espécies de gente, há os vivos e aqueles que andam lá no mar...

A nossa Ostendesa, que nada sossega, de cadeira em cadeira, leva a sua ofensa... Algumas comadres, alguns compadres, batem o ferro da sua ruptura... O seu capitão, com a pança cheia de cerveja, toca tambor... Homem de velas, homem de estrelas, faz escala para um desvio...

Há duas espécies de tempo... Há o tempo em que se espera e o tempo em que se tem esperança... Há duas espécies de gente, há os vivos e aqueles que andam lá no mar...

A nossa Ostendesa, no tempo dos morangos, faz-se amante de um farmacêutico... O seu capitão, morto debaixo da pança, diverte-se com as baleias e com os submarinos. Porque, minha querida, eu, o falso marujo que o tempo obriga a escrever-te de longe, amo-te mesmo. E amo-te tanto que tenho medo , minha rainha, dum farmacêutico...

Há duas espécies de tempo... Há o tempo em que se espera e o tempo em que se tem esperança... Há duas espécies de gente, há os vivos e aqueles que andam lá no mar...

sábado, 17 de abril de 2010

LE DERNIER REPAS



Profissionalismo. Sinceridade. Ausência de tempos mortos durante o espectáculo. Ausência de truques visuais parar distrair o público. Ausência de cenários ou jogos de luzes. Brel está no palco como um boxeur que quer ganhar o combate. Brel canta com o corpo e com o coração. Canta com os gestos e com os olhares. Com Brel pode-se dizer que a canção palpita e transpira no palco. Ele é o marinheiro de Amesterdão, o recruta em campanha ou o homem que espera a sua morte. Caso da canção Le dernier repas...

A última refeição (1964)

Na minha última refeição quero ver os meus irmãos e os meus cães e os meus gatos e a beira-mar...
Na minha última refeição quero ver os meus vizinhos, e até alguns chineses à laia de primos...
E quero que se beba, além do vinho da missa, daquele vinho tão bom que bebemos em Arbois...
E quero que se coma, depois dos padrecos, um faisão vindo de Périgord...
Depois quero que me levem ao alto da minha colina para ver as árvores dormir enquanto fecham os braços, e depois, quero ainda lançar pedras ao céu, gritando DEUS ESTÁ MORTO uma última vez.

Na minha última refeição quero ver o meu jerico, as minhas galinhas e os meus gansos, as minhas vacas e as minhas mulheres...
Na minha última refeição quero ver essas galdérias de quem eu já fui mestre e rei, ou que foram minhas amantes quando eu tinha na barriga o que dava para afogar a terra...
Partirei o meu copo para que se faça silêncio, e cantarei bem alto à morte que avança as cantilenas ordinárias que amedrontam as noviças...
Depois quero que me levem ao alto da minha colina para ver a tarde que caminha lentamente pela planície, e lá, de pé, ainda insultarei os burgueses, sem receios nem remorsos uma vez mais.

Depois da minha última refeição quero que se retirem, que acabem a pândega debaixo do meu tecto...
Depois da minha última refeição quero que me instalem, sentado, só, como um rei recebendo as suas Vestais... No meu cachimbo queimarei as minhas recordações de infância, os meus sonhos inacabados e os meus restos de esperança...
E apenas guardarei, para vestir a minha alma, nada mais que uma ideia de roseira e um nome de mulher... Depois, contemplarei do alto da minha colina que dança se adivinha e acaba por soçobrar...
E no odor das flores que em breve se extinguirá, eu sei que terei medo...
Uma última vez...


sexta-feira, 16 de abril de 2010

L'ÂGE IDIOT

Para o jovem Jacques Brel o importante era viver intensamente cada momento que passava. O Amanhã era outro dia... Mas, o tempo da tropa chegou e veio definitivamente destruir esta filosofia de vida. Ele, que tinha passado a adolescência em tempo de guerra, vê no serviço militar uma máquina de fabricar idiotas, que degrada e mutila as personalidades que ela mesma ignora...




A IDADE PARVA (1965)

A idade parva é às vinte Primaveras, quando a barriga arde de fome. Acredita-se que ao lavar as mãos se lavam também os problemas... É quando se tem mais olhos que barriga, é quando se têm os olhos maiores que o coração, é quando se tem o coração ainda demasiado terno... É quando se têm os olhos ainda cheios de flores…E que bem cheiram os campos de luzerna a tambores mal rufados... É quando se reconhecem os clarins desmaiados e os leitos da pequena virtude. E quando se adormece todas as noites nas casernas.

A idade parva é às trinta Primaveras, quando a barriga começa a crescer. Quando o ventre se impõe e desautoriza o coração... Quando os olhos pesam mais, quando os olhos marcam as horas. Eles que sabem que às trinta Primaveras começa a contagem decrescente... E que se abandonam os velhos na sua caverna, e que se põem umas orelhas de burro a Deus... Mas, que à noite, se acendem luzes quando se esfregam dois corações de mulher, e já se sentem algumas saudades do tempo das casernas...

A idade parva é às sessenta Primaveras, quando a barriga se bamboleia, quando a barriga se avoluma até fazer inchar o coração... Quando os olhos não têm mais lágrimas, quando os olhos arrefecem, quando os olhos perdem o feitiço, quando os olhos entregam as armas... Quando se ressentem os amores, mas se sente resignação para com os velhos e a sua decadência, ou para com os demasiado jovens de partida... Quando se acredita estar protegidos pelas casernas...

A idade de ouro é quando se morre, quando se fica de barriga para o ar. Quando se fica escondido debaixo da barriga, com as mãos protegendo o coração... Quando enfim se tem os olhos abertos, mas já não se vê nada, quando se olha a claridade e as suas nuvens penduradas...
A idade de ouro é depois do inferno, é depois da idade de prata, onde se fica de novo menino, dentro do ventre da terra...
A idade de ouro é quando se adormece na última caserna...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

LE CHEVAL



Em 1966 Brel anuncia que vai deixar os palcos. Primeiro, porque se sente cansado das incessantes digressões e não quer envelhecer na ribalta, aos olhos do público. Segundo, porque não quer tornar-se num velho cantor cabotino, numa vedeta a quem o público aplaude por deferência. Acaba todos os contratos em Maio de 1967 e o derradeiro espectáculo é dado em Roubaix no dia 16 de Maio. Cada vez que Brel acaba de interpretar uma canção dirige-se ao seu pianista, Gérard Jouanest, e diz-lhe “nunca mais tocamos esta…”

O CAVALO (1967)

Eu era bem mais feliz, bem mais feliz, antes, quando eu era o cavalo que puxava a tua caleche, Madame, bela Madame, pelas ruas de Bordéus...
Mas, tu quiseste que eu me tornasse teu amante, tu quiseste mesmo que eu deixasse a minha égua...
Eu não era senão um cavalo, sim, sim, mas tu aproveitaste-te, e por amor por ti eu agora estou “deséguado” ... E depois, todas as noites, na tua cama de cetim branco, eu sinto saudades da minha cavalariça, da minha cavalariça e da minha égua...

Eu era bem mais feliz, bem mais feliz, antes, quando eu era cavalo, quando tu levavas, madame, grandes tampas, bela madame, quando pulavas a cerca...
Mas, tu quiseste que eu aprendesse as boas maneiras, quiseste que eu aprendesse a andar sobre as patas traseiras...
Eu não era mais que um cavalo, sim, sim, mas tu mandaste-me castrar, e por amor por ti... eu agora estou “atraseirado”...
E depois, todas as noites, quando dançamos o tango, sinto saudades da minha cavalariça, da minha cavalariça e do meu galope...

Eu era bem mais feliz, bem mais feliz, antes, quando eu era o cavalo que te levava a passear, bela Madame, sobre a minha garupa, na floresta de Fontaibleau.
Mas, tu quiseste que eu fosse o teu banqueiro, tu quiseste mesmo que eu me pusesse a cantar...
Eu não era mais que um cavalo, sim, sim, mas tu abusaste, e por amor por ti… eu agora estou “envedetado”...
E depois, todas as noites, quando eu canto NE ME QUITTE PAS, eu tenho saudades da minha cavalariça e dos meus silêncios de outrora...

E depois, e depois, tu partiste... Radical, com um Zebra, um Zebra mal riscado, no dia em que, Madame, eu recusei que tu aprendesses a montar a cavalo...
Mas, tu já me tinhas tirado a minha égua e o meu silêncio e as minhas ferraduras e a minha cavalariça e o meu galope...
Só me deixaste os dentes. E é por isso que eu corro, eu corro, eu corro pelo mundo relinchando, acontecendo-me agora recusar o amor pelas mulheres e pelas éguas.
Eu era bem mais feliz, bem mais feliz, antes, quando eu era o cavalo que levava a passear a Madame, na sua caleche... Quando eu era cavalo e tu eras uma megera!!!


terça-feira, 13 de abril de 2010

BERNARD GIORDAN

Das Edições Jacques Brel recebi a informação sobre mais um espectáculo de homenagem ao cantor. Na Cidade de Nice, na próxima quinta-feira,15.

domingo, 11 de abril de 2010

QUAND ON N'A QUE L'AMOUR


Já aqui referi que nas suas primeiras canções Brel aspira a um ideal. Ele canta com fervor a humildade, a lealdade, a ternura, o belo, o bem e a alegria de viver.
Há nesta primeira fase da sua carreira uma vontade de transformar as coisas e o mundo através da força dos sentimentos. E a força de amar explode nesta canção, Quand on n'a que l’amour. Esta canção pertence ao seu 2º LP e foi certamente a canção que lançou Jacques Brel na cena internacional. Diz-se que ele a escreveu em honra da sublevação húngara contra a invasão soviética no ano de 1956.
Estão registadas até hoje mais de 270 versões de “Quand on n’a que l’amour” em idiomas como por exemplo o japonês, o sueco, o filipino, o holandês , o catalão, o russo, o italiano, o polaco e até o hebraico.

QUANDO SÓ TEMOS O AMOR (1956)
Quando só temos o amor a partilhar no dia da grande viagem que é o nosso grande amor...
Quando só temos o amor, meu amor, tu e eu, para resplandecer de alegria cada hora de cada dia...
Quando só temos o amor para viver as nossas promessas, e sem outra riqueza que não seja acreditar sempre nelas...
Quando só temos o amor para rechear de maravilhas e cobrir de sol a miséria dos subúrbios...
Quando só temos o amor por única razão, por única canção e único socorro...
Quando só temos o amor para vestir pela manhã pobres e vagabundos com mantos de veludos...
Quando só temos o amor para oferecer em oração pelos males da Terra, como um simples trovador...
Quando só temos o amor para oferecer àqueles cujo único combate é procurar o dia...
Quando só temos o amor para traçar um caminho e forçar o destino em cada encruzilhada...
Quando só temos o amor para falar aos canhões e nada mais que uma canção para convencer um tambor...
Então, sem ter nada mais que a força do amor, nós teremos nas nossas mãos, amigos, o mundo inteiro!