sexta-feira, 9 de abril de 2010

NOTÍCIAS

Das Edições Jacques Brel continuo a receber a um ritmo quase diário informações sobre acontecimentos, homenagens, espectáculos, citações, reedições de discos, etc, relacionados com o cantor.
32 anos depois do seu desaparecimento físico, Brel continua presente na memória de todos os que o viram ao vivo ou que compraram os seus discos nos anos 60. Mas o que surpreende é que continua a crescer o número de fãs de Brel. E esses fãs nasceram já depois de 1978.
Hoje tenho três notícias relacionadas com o autor de Ne me quitte pas.

O trio de padres LES PRÊTRES gravou um CD – SPIRITUS DEI – onde inclui a canção Quand on n’a que l’amour, de Brel.


Foi editado um livro de fotografia (Éditions de la Martinière) de GABRIELE BOISELLE sobre cavalos à solta, com textos de Jean-Louis Gouraud. Uma das fotos tem um verso da canção Le cheval “J'étais vraiment, j'étais bien plus heureux , bien plus heureux avant quand j'étais cheval”


O cantor Jean Luc Tassel continua com o seu espectáculo “L’homme dans la cité”, piano, solo, voix. Tassel revisita Brel no dia 23 no BABILO.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

8 de ABRIL

Hoje, dia 8 de Abril, se Brel estivesse vivo faria 81 anos.
Mas, vamos imaginar que ele não morreu em 1978 e vive em Hiva Oa, nas ilhas Marquesas.
Está bem, e feliz, apesar de ter problemas de saúde próprios da idade. Já não canta, evidentemente, mas ainda escreve e hoje decidiu refazer uma das suas canções composta em 1967 .
Se hoje Brel estivesse vivo será que escreveria qualquer coisa como isto?

La la la (2010)

Maintenant je suis vieux, je suis insupportable,
Sauf pour ma bite et mon maigre pisser ;
Mon chant est déjà mort, ma veine est périssable,
Mais toutes mes chansons m’ont laissé persister.
J’habite un quelconque pacifique Archipel
Qui m’ignore tout autant que quand j’étais Brel
Même que j’y chante Ne me quitte pas,
Strangers in the night ou Alloha, alloha...

Je suis fui comme un trop vieux chanteur
Par tous les ventres da la societé tahitienne,
Je bois donc seul mes droits d’auteur,
Il faut bien être lorsque l’on n’a pas de la haine...
Je ne suis reçu que par mes voisins d’Atuona
A leur festin pour qu’ils ne soient pas treize,
Et j’y parle sur une simple chaise,
J’y parle aprés un plus vieillard que moi
« Messieurs, ici dans les Marquises, ça va !
C’est moi l’éternel chasseur de tendresse !!! »

Et s’il y arrive un con futile et vain
Ou si un bourgeois imbécile débarque au port,
Je les insulte comme j’insulte un Flamingant
Penchés vers moi comme des larbins de la mort...
Parce que je ne veux pas vivre cerné de rigolos
Qui me disent qu’il était chouette Bécaud,
Et que s’il y en a des qui veulent se dissoudre devant les feux,
Y en a des qui préfèrent résister derrière le rideau ...


Vieux Jacques

Nota:
Quem quiser comparar este texto, que tomei a liberdade de criar, com o original de Brel, pode vê-lo AQUI.



Casa onde nasceu Jacques BREL, Avenue du Diamant, no bairro SCHAERBEEK, em BRUXELAS.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

LES TIMIDES



Não existe gravação em estúdio desta canção. A única gravação disponível é de um espectáculo no Olympia em 1964.
Se Brel não tivesse existido nunca os tímidos teriam tido a sua canção. Uma canção com uma melodia irónica mas ao mesmo tempo terna. Uma canção com um texto sintético e ao mesmo tempo dramático.
Sobre a timidez Jacques Brel dizia: “ Sou bastante tímido, mas isso não tem nada a ver com o facto de cantar para duas mil ou vinte mil pessoas. Todas essas pessoas que me conhecem dos espectáculos e da televisão, vêem-me sempre com um ar grave e então pensam “mas que tipo arrogante, que tipo vaidoso”. Mas se eu fosse o farmacêutico da esquina ninguém se ia importar com isso, ninguém ligava nenhuma…”.
Brel não gostava de ser considerado um bicho raro, metido numa jaula onde as pessoas vinham para o ver, para lhe fazer perguntas sobre isto e aquilo. Ele adorava o confronto. Gostava de estar no jogo em igualdade de circunstâncias com o interlocutor. No palco usava a provocação e a ironia para esconder a timidez.

OS TÍMIDOS

Os tímidos, torcem-se, contorcem-se, saltitam, enroscam-se, enrugam-se, sonham ser coelhos... Pouco importa de onde saem, são folhas mortas levadas pelo vento à frente das nossas portas... Dir-se-ia que transportam uma mala em cada mão...

Os tímidos vão pela sombra, a sombra triste da sua sombra… Só a penumbra sabe dos seus pudores orientais... Eles franzem-se, empalidecem, amarelecem, coram, ruborizam, ficam vermelhos, com uma mala em cada mão...

Mas os tímidos, numa noite de audácia, à frente do espelho, imaginando o espaço, metem o cabedal e...“Afastem-se! Vamos Paris, aguenta-te!!!... E viva a Gare de St Lazare !!!” Mas, perdem-se, assustam-se, fogem e regressam a casa com uma mala em cada mão...
Os tímidos, quando sofrem por causa de uma Elvira, suspiram, desejam coisas que desejam dizer, mas que não ousam de maneira nenhuma... E as suas amantes, mais entendidas em copos que em carinhos, uma noite, deixam-nos de cu para o ar, com um mala em cada mão...

Os tímidos, então, envelhecem, acabam, encolhem. E quando deslizam para os abismos, quero dizer, quando morrem, não se atrevem a dizer nada, a nada maldizer, não ousam estremecer, não ousam sorrir... Somente um suspiro... E morrem com uma mala sobre o coração...

terça-feira, 6 de abril de 2010

GRAND-MÈRE


A canção Grand-mère, de 1965, é mais um retrato em cores vivas e acutilantes muito ao gosto de Jacques Brel. A fase idealista já estava há muito ultrapassada. Agora os “temas fracturantes” eram o prato forte das canções brelianas. A denúncia dos conformismos, a mediocridade, os fanatismos e as hipocrisias como a desta canção…

A AVÓ

É preciso ver a avó, a avó e a sua peitaça... A avó e as suas fábricas, e os seus vinte secretários...
É preciso ver a avó dirigir os seus negócios. Ela vende correntes de ar disfarçadas de ventanias...
É preciso ver a avó, quando ela conta o seu pé-de-meia.
São montes de zeros, redondinhos como o seu traseiro.
Mas, enquanto isso, o avô corre atrás da criada, dizendo-lhe que o dinheiro não dá felicidade...
Como querem vocês, gente boa, que as nossas boas criadas e os nossos forretas tenham a noção dos valores?...

É preciso ver a avó, uma transmontana que fuma Havanos e que faz tremer a Terra...
É preciso ver a avó, cercada de generais... Em calções de couro, ela ganha as suas guerrazinhas...
É preciso ver a avó em sentido de chapéu... É Waterloo onde não estará Blucher...*
Mas, enquanto isso, o avô corre atrás da criada, dizendo-lhe que o exército só faz cera...
Como querem vocês, gente boa, que as nossas boas criadas e os nossos magalas tenham a noção dos valores?...

É preciso ver a avó a convencer-se sobre a morte... Um pedacinho de sacristia, um pedacinho de remorso...
É preciso ver a avó e a sua Liga das Virtudes, os seus velhos combatentes, os seus velhos combatidos...
É preciso ver a avó, quando ela se acha pecadora... Um grande copo de vinho da missa e um dedo de convento...
Mas, enquanto isso, o avô corre atrás da criada, dizendo-lhe que os padres são uns farsantes...
Como querem vocês, gente boa, que as nossas boas criadas e os nossos ateusinhos tenham a noção dos valores...

Mas... É preciso ver o avô, nas tascas à cunha, onde se joga bilhar e se emborcam copos de cerveja...
É preciso ver o avô, a acariciar os juncos, a desfolhar as lagoas, chorando o Rimbaud...
É preciso ver o avô, ao Domingo à noite, envergonhado e lamentando ter enganado a avó...
Mas, enquanto isso, a avó come a criada, dizendo-lhe que os homens são uns mentirosos...
Como querem vocês, gente boa, que as nossas boas criadas e a nossa bela juventude tenha a noção dos valores...

* Napoleão I foi vencido por Blucher em 1815 na localidade belga Waterloo.

sábado, 3 de abril de 2010

LA CATHÉDRALE



As Edições Jacques Brel informam-nos que finalmente o ASKOY II, o veleiro de Jacques Brel, que acabou os seus dias naufragado numa ilha da Nova Zelândia, vai ser finalmente recuperado.
Este barco construído por HUGO van KUIK nos anos 70 está neste momento no porto belga de Ostende e no próximo dia 8 vai ser transportado para Rupelmonde onde se iniciarão de imediato as obras de restauro. Dia 8 de Abril porque é a data do nascimento de JAQUES BREL, e o autor do restauro,Pieter Wittevrongel , escolheu esta data para que ela seja a do renascimento do ASKOY II.
No último disco de Jacques Brel está esta canção -A Catedral - que é sem dúvida dedicada ao seu barco.

A CATEDRAL

Peguem numa catedral e ponham-lhe alguns mastros, um gurupés, uns amplos porões, cabos, tirantes. Peguem numa catedral esguia e alta e de bojo largo, uma catedral a erigir com estais e velas mestras. Uma catedral de Picardia ou da Flandres, uma catedral à venda por padres sem estrela. Essa catedral de pedra, que será “desnossosenhorizada”, arrastem-na para aqui, onde o mar vem florir. Icem os panos com alegria e zarpem para Inglaterra…
A Inglaterra é bonita de se ver do alto de uma catedral, mesmo que o chá faça chover alguns aborrecimentos sobre as escalas… As Cornualhas estão ali à mão quando elas dão à luz do dia, e nós vogamos entre a ternura e o amor. Peguem numa catedral e ponham-lhe alguns mastros, um gurupés e uns amplos porões, mas não acordem. Desenrolem todos os panos, e “ala bote” marujos.
Cacem os cachalotes que vos guiarão aos Açores, e depois à Madeira com as suas raparigas canarinas e o oceano, que alegre, vos empurrará até às Antilhas… Peguem uma catedral, icem o pavilhão pequeno e façam cantar as velas, mas não acordem…
Porra, as Antilhas são lindas. Elas estalam-te na boca. A gente deitava-se bem sobre elas… Mas vamos para diante porque todos os sinos tocam a rebate… A vossa catedral vai a todo o pano e trespassará o canal do Panamá… Peguem numa catedral de Picardia ou de Artois, partam para ir colher as estrelas, mas não acordem…
E eis o Pacífico. Longas vagas que rolam ao vento e murmuram a sua música até às ilhas mesmo ali à frente, e que vos perdoarão, lá, melhor que noutro sítio qualquer, se vocês quiserem desaparecer entre as flores. Peguem numa catedral, icem o pavilhão pequeno e façam cantar as velas, mas não acordem…Peguem numa catedral de Picardia ou de Artois e partam para ir colher as estrelas, mas não acordem…
Arrastem esta catedral de pedra através da floresta até onde o mar vem florir, mas não acordem… Mas não acordem…


sexta-feira, 2 de abril de 2010

TIAGO BETTENCOURT



No caderno ÍPSILON (PÚBLICO) de hoje, dia 2, é publicada uma longa entrevista com TIAGO BETTENCOURT, ex-Toranja e actual Mantha.
Nesta entrevista Tiago Bettencourt diz a certa altura quando fala da sua melomania:
Jacques Brel, por sua vez, ficou preservado desde a infância. Descobrimo-lo ao passar NE ME QUITTE PAS: "O meu pai é o maior fã que conheço e uma das imagens que guardo de pequeno é Jacques Brel a cantar, empapado em suor. Pegar nas cassetes (vídeo) que o meu pai tinha e vê-lo a cantar aquele francês tão bem dito era das poucas coisas que me faziam sentar na sala". Nos seus afectos musicais, tudo remete para a emoção, para a tal noção de verdade.

Eu que também sou "o maior fã de Brel" só me resta dar os parabéns ao Tiago pelo seu bom gosto musical, que afinal foi herdado de um breliano convicto: O seu pai.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

GABRIEL LEFEBVRE



LES PLUS BELLES CHANSONS DE JACQUES BREL é mais um livro de Banda Desenhada inspirado em canções do Grand Jacques. O seu autor é GABRIEL LEFEBVRE, ilustrador, um verdadeiro mestre da aguarela e da tinta da china.
Este livro é da Editora
La Renaissance du Livre e conta com 58 ilustrações.
É assim que ele recria NE ME QUITTE PAS em aguarela:


Por falar em Ne me quitte pas, Gigliola Cinquetti, a tal que ganhou o Eurofestival em 1964, com a canção Non ho l’età, também cantou este ex-libris de Brel.