sexta-feira, 12 de março de 2010

FLAMINGANT

Da Compagnie Brel trente ans déjà! recebi esta informação que vem precisamente a propósito do que eu aqui disse nos dias 1,3 e 4 de Março e que dá razão a Brel, trinta anos depois da sua morte: Sempre houve e continuará a haver “flamenguentos” na Bélgica. E noutros lugares...

Tradução de parte do Editorial político do diário flamengo De Morgen, publicado a 8 de Março último. O seu autor: YVES DESMET, comentador político.

“É espantoso como uma parte da população flamenga – habitualmente a parte que se refere constantemente à sua maioria numérica e à maior riqueza económica da sua região – considera a chegada de pessoas que falam outras línguas uma espécie de ameaça mortal para a Flandres. Foi essa parte, o Movimento Flamengo, que começou a assobiar quando a FESTA DO CANTO NACIONAL FLAMENGO quis prestar homenagem ao flamengo de língua francesa JACQUES BREL.
Os flamengos deviam ter muito cuidado para que a Flandres não sofra mais danos na sua imagem nos países próximos e longínquos. Que é a imagem de uma região de vistas curtas, dobrada sobre si mesma e unilingue e que, portanto, também desencoraja os investidores estrangeiros. Enquanto nós ficamos aqui no meio de nós.”

ATELIER DE LÍNGUAS
O aluno (negro) diz "ATENÇÃO!"(em francês) e o professor corrige dizendo "NÃO! ATENÇÃO!" (em flamengo).


quinta-feira, 11 de março de 2010

LA FOIRE



Em 17 de Fevereiro de 1953, Jacques Brel grava o seu primeiro disco. Um disco em 78 rotações por minuto, edição de autor, com duas canções: La foire, e Il y a. Vendeu naquela altura duzentos exemplares. Um exemplar deste disco chegou a Paris, às mãos do descobridor de talentos Jacques Canetti, que ao ouvir a gravação ficou entusiasmado e chamou Brel a Paris para uma audição. Neste primeiro disco Jacques Brel usou o pseudónimo BEREL, um anagrama de REBEL - rebelde.

A feira (1953)
Gosto da feira, onde, por três vinténs, podemos pôr a cabeça à roda num carrossel de cavalos ruços ao som duma musiquinha tola...
As luminárias, alinhadas aos pares como sobrancelhas de gigante, lançam ao céu salpicos de luz... As tômbolas giram, giram sem tréguas, levando todo o nosso dinheiro, e nós damos um pouco de sonho para que os homens fiquem felizes...
Cheira à gordura onde dançam as batatas fritas, cheira a batatas fritas embrulhadas em papel. Cheira a farturas que se comem avidamente, cheira aos homens que as comeram... Por todo o lado vejo as corridinhas dos namorados que vão dançar.
Eu não vou dançar de certeza... A minha avó disse-me para eu ficar de pé atrás...
E assim que não há vinténs para pôr a cabeça à roda, no carrossel de cavalos ruços, ao som de uma musiquinha tola, vamos para casa, calmamente, olhando os céus, e perguntando simplesmente se não haverá nada melhor...


quarta-feira, 10 de março de 2010

LES PIEDS DANS LE RUISSEAU


"SÊ SIMPLES E SÓBRIO, DESPOJA O TEU CORAÇÃO E O TEU ESPÍRITO DE BAGAGENS INÚTEIS.
ESCOLHE E GUARDA O ESSENCIAL" (extracto do regulamento da Franche Cordée)


"Les pieds dans le ruisseau" é uma canção de 1956. É uma canção muito influenciada pela juventude de Brel no movimento católico Franche Cordée e pela sua passagem pelos escuteiros. Pela sua ingenuidade e lirismo esta canção anos mais tarde talvez não chegasse a ser editada. Mas Brel gravou-a e nunca lamentou o facto de a ter escrito.

Os pés no riacho
Com os pés no riacho, vejo fluir a vida. Vejo, mas sem dizer uma palavra...
Os peixes delicados contam-me a sua vida, fazendo círculos nas águas límpidas, e eu respondo, escrevendo palavras na água, palavras bonitas, palavras à minha maneira…
Na corrente das águas desaparece uma carta, uma carta de um amante escondido, talvez... Ah, quem me dera ter perto de mim uma rapariga a quem eu pudesse acariciar os dedos...
E quando o sapo adormece ao crepúsculo, entre os juncos, a dona libélula inclina o meu olhar sobre as águas e eu reparo na minha imagem, mas… Vejo um idiota...


terça-feira, 9 de março de 2010

TASSEL

Das Edições Jacques Brel recebi a informação de que JEAN-LUC TASSEL deu hoje um espectáculo com canções de Brel, em Péniche, num barco restaurante -Pourquoi Pas .
Sobre este espectáculo o próprio Tassel diz que se trata "do espectáculo de piano Solo voz "L’Homme dans la cité" ... 20 canções de Jacques Brel envoltas em poesia, revisitadas e recoloridas musicalmente sobre temas universais que tocam de perto as nossas vidas quotidianas íntimas ... Obrigado, entre outros, a France Brel e Maurane pela sua confiança e incentivo ... Até logo..."


segunda-feira, 8 de março de 2010

JE T'AIME



A ideia que domina a obra de Brel é, sem dúvida, o AMOR. Esta ideia é expressa em textos líricos e muito poéticos ou em versos crus e tristemente amargos, mas sempre com uma MULHER a pulsar dentro da canção. A ideia do amor, girando à volta da Ternura ou da Sensualidade, aparece inúmeras vezes nas canções de Brel. Não se poderá, portanto, acusar Brel de ser misógino. O seu criticismo acerca das mulheres era sobretudo para denunciar as fraquezas, as vaidades, as hipocrisias, que afinal são inerentes a todo o ser humano. Brel detestava as fãs que bajulavam o cantor e não respeitavam o homem. A canção que publico hoje, Je t’aime, é de 1961. Descreve um amor idílico e nada misógino.

Eu amo-te

Pelo orvalho que teme no cálice das flores não ser amado e que se parece com o teu coração, eu amo-te...
Pelo dedo da chuva nas teclas do charco tocando página de lua e que se parece com a tua voz, eu amo-te...
Pela madrugada que hesita sobre o fio do horizonte, luminosa e frágil, e que se parece com o teu rosto, eu amo-te...
Pela alvorada amena que um pássaro faz tremer ao bater da asa e se parece com o teu sorriso, eu amo-te…
Pelo dia que nasce e borda o bosque em ponto de luz, e se parece com a tua alegria, eu amo-te…
Pelo dia que renasce duma noite sem amor e se parece já com o teu regresso, eu amo-te...
Pela porta que se abre, pelo grito que brota ao mesmo tempo de dois corações juntos e se parece com este grito: Eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te...



domingo, 7 de março de 2010

NOS PASSOS DE JACQUES BREL




Brel viveu em Anderlecht (Bruxelas) dos 13 aos 22 anos de idade, nove anos decisivos na sua vida, durante os quais ele se apresentou pela primeira vez em público e tomou a firme resolução de consagrar a sua vida à música.
Da sua casa – Rue Jacques Manne (2) – à “Fritaria” Eugène, passando pelo terminus do Eléctrico 33, tantos lugares que inspiraram Brel. A canção Madeleine é um desses casos.
Agora a praça Henry Rey (1) rende-lhe uma homenagem muito particular porque os seus muretes exibem , precisamente, as palavras de MADELEINE, esculpidas na pedra azul que dá forma aos muros.
Esta praça, perto da Estação de Metro JACQUES BREL (3), está incluída numa visita guiada por Bruxelas , intitulada “NOS PASSOS DE JACQUES BREL”.

Brian Joubert, campeão do mundo de patinagem artística sobre o gelo, inspirou-se em MADELEINE para uma das suas exibições...

sábado, 6 de março de 2010

LA BIÈRE



Jacques Brel dizia que se pudesse apenas escreveria canções. Não as cantava. Cantá-las, era como prostituir-se... Ele gostava de escrever, não de cantar. Então porque nunca escreveu romances, contos, novelas...? Unicamente por falta de tempo. Dos 365 dias do ano Jacques Brel trabalhava arduamente mais de 300. Porém, quando abandonou os espectáculos, em 1967, com 38 anos de idade, continuou a gravar discos e dedicou-se ao cinema até 1973. Acabou por morrer em 1978, aos 49 anos, sem nunca ter tido realmente tempo para escrever.


A CERVEJA(1968)

Cheira a cerveja de Londres a Berlim, cheira a cerveja,
meu Deus como se está bem, cheira a cerveja... Dá-me a tua mão!
Transborda de Uylenspiegel e os seus primos, e os primos afastados do Breughel, o Velho...
Transborda de vento do Norte que morde como um cão, o porto que dorme de barriga cheia...
Transborda de copos cheios que vão à quermesse, como as velhas vão de manhã à missa...
Transborda de dias mortos e amores frios. Por cá só temos o Verão que as raparigas trazem no corpo... Transborda de velhadas que cuidam das suas recordações regando com gargalhadas as suas barbas brancas...
Transborda de debutantes que tratam da sífilis saltitando de brinde em brinde...
Transborda de insultos, transborda de Amsterdam, transborda de mãos de macho nas nádegas das mulheres...
Transborda de matronas que têm sempre um seio para a cerveja e um seio para o amor...
Transborda de horizontes que nos fazem perder a cabeça... Mas, o álcool é loiro, e o diabo está connosco, e os povos sem montanhas precisam dos dois... A gente envaidece-se com aquilo que pode...
Cheira a cerveja de Londres a Berlim, cheira a cerveja, meu Deus como se está bem, cheira a cerveja... Dá-me a tua mão!


("Uylenspiegel" : personagem lendária, que vivia nos países baixos; um aventureiro que amava a justiça e a liberdade)