segunda-feira, 8 de março de 2010

JE T'AIME



A ideia que domina a obra de Brel é, sem dúvida, o AMOR. Esta ideia é expressa em textos líricos e muito poéticos ou em versos crus e tristemente amargos, mas sempre com uma MULHER a pulsar dentro da canção. A ideia do amor, girando à volta da Ternura ou da Sensualidade, aparece inúmeras vezes nas canções de Brel. Não se poderá, portanto, acusar Brel de ser misógino. O seu criticismo acerca das mulheres era sobretudo para denunciar as fraquezas, as vaidades, as hipocrisias, que afinal são inerentes a todo o ser humano. Brel detestava as fãs que bajulavam o cantor e não respeitavam o homem. A canção que publico hoje, Je t’aime, é de 1961. Descreve um amor idílico e nada misógino.

Eu amo-te

Pelo orvalho que teme no cálice das flores não ser amado e que se parece com o teu coração, eu amo-te...
Pelo dedo da chuva nas teclas do charco tocando página de lua e que se parece com a tua voz, eu amo-te...
Pela madrugada que hesita sobre o fio do horizonte, luminosa e frágil, e que se parece com o teu rosto, eu amo-te...
Pela alvorada amena que um pássaro faz tremer ao bater da asa e se parece com o teu sorriso, eu amo-te…
Pelo dia que nasce e borda o bosque em ponto de luz, e se parece com a tua alegria, eu amo-te…
Pelo dia que renasce duma noite sem amor e se parece já com o teu regresso, eu amo-te...
Pela porta que se abre, pelo grito que brota ao mesmo tempo de dois corações juntos e se parece com este grito: Eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te...



domingo, 7 de março de 2010

NOS PASSOS DE JACQUES BREL




Brel viveu em Anderlecht (Bruxelas) dos 13 aos 22 anos de idade, nove anos decisivos na sua vida, durante os quais ele se apresentou pela primeira vez em público e tomou a firme resolução de consagrar a sua vida à música.
Da sua casa – Rue Jacques Manne (2) – à “Fritaria” Eugène, passando pelo terminus do Eléctrico 33, tantos lugares que inspiraram Brel. A canção Madeleine é um desses casos.
Agora a praça Henry Rey (1) rende-lhe uma homenagem muito particular porque os seus muretes exibem , precisamente, as palavras de MADELEINE, esculpidas na pedra azul que dá forma aos muros.
Esta praça, perto da Estação de Metro JACQUES BREL (3), está incluída numa visita guiada por Bruxelas , intitulada “NOS PASSOS DE JACQUES BREL”.

Brian Joubert, campeão do mundo de patinagem artística sobre o gelo, inspirou-se em MADELEINE para uma das suas exibições...

sábado, 6 de março de 2010

LA BIÈRE



Jacques Brel dizia que se pudesse apenas escreveria canções. Não as cantava. Cantá-las, era como prostituir-se... Ele gostava de escrever, não de cantar. Então porque nunca escreveu romances, contos, novelas...? Unicamente por falta de tempo. Dos 365 dias do ano Jacques Brel trabalhava arduamente mais de 300. Porém, quando abandonou os espectáculos, em 1967, com 38 anos de idade, continuou a gravar discos e dedicou-se ao cinema até 1973. Acabou por morrer em 1978, aos 49 anos, sem nunca ter tido realmente tempo para escrever.


A CERVEJA(1968)

Cheira a cerveja de Londres a Berlim, cheira a cerveja,
meu Deus como se está bem, cheira a cerveja... Dá-me a tua mão!
Transborda de Uylenspiegel e os seus primos, e os primos afastados do Breughel, o Velho...
Transborda de vento do Norte que morde como um cão, o porto que dorme de barriga cheia...
Transborda de copos cheios que vão à quermesse, como as velhas vão de manhã à missa...
Transborda de dias mortos e amores frios. Por cá só temos o Verão que as raparigas trazem no corpo... Transborda de velhadas que cuidam das suas recordações regando com gargalhadas as suas barbas brancas...
Transborda de debutantes que tratam da sífilis saltitando de brinde em brinde...
Transborda de insultos, transborda de Amsterdam, transborda de mãos de macho nas nádegas das mulheres...
Transborda de matronas que têm sempre um seio para a cerveja e um seio para o amor...
Transborda de horizontes que nos fazem perder a cabeça... Mas, o álcool é loiro, e o diabo está connosco, e os povos sem montanhas precisam dos dois... A gente envaidece-se com aquilo que pode...
Cheira a cerveja de Londres a Berlim, cheira a cerveja, meu Deus como se está bem, cheira a cerveja... Dá-me a tua mão!


("Uylenspiegel" : personagem lendária, que vivia nos países baixos; um aventureiro que amava a justiça e a liberdade)


sexta-feira, 5 de março de 2010

SUZANNE GABRIELLO



Suzanne Gabriello, filha do actor Gabriello, nasceu em 1932 e faleceu em 1992, em Paris.
Foi cantora e apresentadora de televisão. Como cantora interpretava canções cómicas, canções que parodiavam sucessos da música francesa (ver capa de disco acima). No fim dos anos 60 fez parte de um trio chamado “Les filles à papa”. Na televisão animava emissões para jovens e apresentou concursos de sucesso na televisão francesa.
Porém, Suzanne Gabriello ficou famosa porque foi uma das companheiras de Jacques Brel. Ele conheceu-a durante uma digressão e envolveu-se tão desesperadamente, tão apaixonadamente, que escreveu para ela NE ME QUITTE PAS (Não me deixes). Mas, ironia do destino, foi ele que a deixou uns meses depois de ter gravado a canção.

And now something completely different... Mais uma versão de NE ME QUITTE PAS. Hoje num ritmo todo latino-americano...

quinta-feira, 4 de março de 2010

MARIEKE

Ainda sobre a opinião que Brel tinha sobre os belgas flamengos, que ele alcunhava de flamenguentos, registe-se mais esta opinião extremista e provocadora: ”O flamengo é um francês tosco... o flamenguento é um alemão frouxo, e a língua flamenga... rococó !”
A canção Marieke é a única da sua obra cantada nas duas línguas – francês e flamengo - apesar de que o flamengo que ele usou para a cantar estar deturpado e caricaturado.

Marieke (1961)

Ai, Marieke, Marieke, amei-te tanto entre as torres de Bruges e Gand.
Ai, Marieke, Marieke, já foi há tanto tempo, entre as torres de Bruges e Gand...
Sem amor, ardente amor, sopra o vento, o vento calado
Sem amor, ardente amor, chora o mar, o mar cinzento
Sem amor, ardente amor, investe a luz, a luz sombria
E a areia varre a minha terra, a minha terra plana, a minha Flandres…
Ai, Marieke, Marieke, os céus flamengos têm as cores das torres de Bruges e Gand...
Ai, Marieke, Marieke, os céus flamengos choram comigo entre Bruges e Gand....
Sem amor, ardente amor, sopra o vento, acabou
Sem amor, ardente amor, chora o mar, está acabado
Sem amor, ardente amor, investe a luz, está tudo terminado
E a areia varre a minha terra, a minha terra plana, a minha Flandres…
Sem amor, ardente amor, ri-se o diabo, o negro diabo...
Sem amor, ardente amor, arde o meu coração, o meu velho coração...
Sem amor, ardente amor, morre o Verão, o Verão triste…
E a areia varre a minha terra, a minha terra plana, a minha Flandres…
Ai, Marieke, Marieke, dá-me esse tempo, entre Bruges e Gand… Dá-me esse tempo em que tu me amaste entre Bruges e Gand...
Ai, Marieke, Marieke, a noite muitas vezes entre as torres de Bruges e Gand...
Todos os lagos me estendem os seus braços, entre Bruges e Gand...


quarta-feira, 3 de março de 2010

LES FLAMANDES



Segundo Brel, a religião cria seres acanhados e passivos que, para agradar aos pais, ao sacristão e mesmo a sua eminência o Arcebispo, levam uma vida mesquinha feita de tradições e com os olhos postos numa reputação que é preciso manter a todo o custo… Para ele, as Flamengas da sua canção eram, portanto, herdeiras dessa faixa mais conservadora, mais nacionalista, e que ainda por cima queria impor os seus costumes, a sua arte e a sua língua ao resto do país – os Flamenguentos, na terminologia de Jacques Brel. Era desta maneira que ele via o seu país raso: “A Bélgica é um terreno baldio onde as minorias se guerreiam em nome de duas culturas que não existem.”

AS FLAMENGAS (1959)
As flamengas dançam sem dizer nada, sem dizer nada, aos Domingos em ponto. As flamengas dançam sem falar, as flamengas são pouco faladoras... Se elas dançam é porque têm vinte anos, e aos vinte anos é preciso namorar. Namorar para se poder casar, e casar para ter filhos... É isto que lhes dizem os pais, ao sacristão e mesmo a sua eminência o Arcebispo, que prega no convento. E é por isso, por isso, que elas dançam, as flamengas...
As flamengas dançam sem vibrar, sem vibrar, aos Domingos em ponto. As flamengas não são vibrantes... Se elas dançam é porque elas têm trinta anos e aos trinta anos é bom mostrar que tudo vai bem, que as crianças vão crescendo, tal como o lúpulo e o trigo no prado... Elas são o orgulho dos seus pais e do sacristão e de sua eminência o Arcebispo, que prega no convento, e é por isso, por isso, que elas dançam, as flamengas...
As flamengas dançam sem sorrir, sem sorrir, aos Domingos em ponto. As flamengas não são sorridentes... E se elas dançam é porque têm setenta anos, e aos setenta anos é bom mostrar que tudo vai bem, que os netinhos vão crescendo, tal como o lúpulo e o trigo no prado...Todas vestidas de negro como os seus pais, como o sacristão e como sua eminência o Arcebispo, que arenga no convento... Elas herdam, e é por isso, por isso, que elas dançam, as flamengas...
As flamengas dançam sem fraquejar, sem fraquejar, aos Domingos em ponto. As flamengas não são fracas... Se elas dançam é porque têm cem anos, e aos cem anos é bom mostrar que tudo vai bem, que se tem bom pé, bom lúpulo e bom trigo no prado... Elas vão-se encontrar com os seus pais, com o sacristão e mesmo com sua eminência o Arcebispo, que repousa no convento. E é por isso, por isso, que por uma última vez elas dançam, as flamengas...


segunda-feira, 1 de março de 2010

LES F...

Há pelo menos três Bélgicas dentro da Bélgica: Bruxelas, Flandres e Valónia. Brel, provocador, insiste em chamar “flamenguentos” aos habitantes da Flandres, que autoritariamente pretendem que todo o país fale flamengo, à semelhança da Holanda. Foram raras as canções que Brel gravou nas versões flamenga e francesa, tal era o repúdio que ela tinha pela língua flamenga. Esta canção, Les F, (F de flamenguento) está no seu último disco. Fica assim como que o último libelo do autor aos seus compatriotas autoritários do norte.
E tal como os lisboetas contam anedotas de alentejanos os belgas de Bruxelas contam anedotas dos belgas flamengos. No livro L’homme et la mer, de Prisca Parrish, Brel conta esta anedota. “Sabem porque é que os flamengos têm a testa toda picada à segunda-feira de manhã? Porque aos domingos eles comem com o garfo…”

Os F... (1977)

Os Flamenguentos... Canção cómica...
Senhores Flamenguentos, tenho aqui uma piada para vocês rirem... “Já há muito tempo que me andam a obrigar a soprar-vos no cu para se tornarem autocarros... “ Mas, vocês são equilibristas e nada mais que isso... São Nazis durante as guerras e católicos entre elas, vocês oscilam sempre entre o fuzil e o missal... Os vossos olhares são longínquos e o vosso humor está exangue, apesar de que há ruas em Gand que mijam nas duas línguas. Estão a ver, eu gosto de pensar em vocês, porque nada se perde... Senhores Flamenguentos, estou aqui para vos provocar...
Vocês conspurcaram a Flandres, mas a Flandres vais julgar-vos. Vejam o Mar do Norte que fugiu de Bruges. Parem de me encher o saco com a vossa arte flamenga-italo-espanhola... Vocês são tão, tão grosseiros, que quando, nas noites de tempestade, os chineses cultos me perguntam de onde eu sou, eu respondo enfastiado e com lágrimas nos dentes “Eu sou do Luxemburgo”. E se às miúdas ousamos cantar em flamengo, elas desvanecem-se sonhando com pássaros cor-de-rosa e brancos...
E proíbo-vos de esperar, que alguma vez em Londres, debaixo de chuva, eu os possa confundir com ingleses... E proíbo-vos, em Nova Iorque ou em Milão, de arrotar senão em flamengo, meus senhores! Vocês não terão um ar de parvos, verdadeiramente parvos, mas eu recuso-me a dizer que me estou nas tintas para isso... E eu proíbo-vos de obrigar as nossas crianças, que não vos fizeram nada, a ladrar em flamengo... E se os meus irmãos se calam, tanto pior para a Flandres.
Eu canto, insisto e assino... O meu nome é Jacques Brel...