Há pelo menos três Bélgicas dentro da Bélgica: Bruxelas, Flandres e Valónia. Brel, provocador, insiste em chamar “flamenguentos” aos habitantes da Flandres, que autoritariamente pretendem que todo o país fale flamengo, à semelhança da Holanda. Foram raras as canções que Brel gravou nas versões flamenga e francesa, tal era o repúdio que ela tinha pela língua flamenga. Esta canção, Les F, (F de flamenguento) está no seu último disco. Fica assim como que o último libelo do autor aos seus compatriotas autoritários do norte.
E tal como os lisboetas contam anedotas de alentejanos os belgas de Bruxelas contam anedotas dos belgas flamengos. No livro L’homme et la mer, de Prisca Parrish, Brel conta esta anedota. “Sabem porque é que os flamengos têm a testa toda picada à segunda-feira de manhã? Porque aos domingos eles comem com o garfo…”
Os F... (1977)
Os Flamenguentos... Canção cómica...
Senhores Flamenguentos, tenho aqui uma piada para vocês rirem... “Já há muito tempo que me andam a obrigar a soprar-vos no cu para se tornarem autocarros... “ Mas, vocês são equilibristas e nada mais que isso... São Nazis durante as guerras e católicos entre elas, vocês oscilam sempre entre o fuzil e o missal... Os vossos olhares são longínquos e o vosso humor está exangue, apesar de que há ruas em Gand que mijam nas duas línguas. Estão a ver, eu gosto de pensar em vocês, porque nada se perde... Senhores Flamenguentos, estou aqui para vos provocar...
Vocês conspurcaram a Flandres, mas a Flandres vais julgar-vos. Vejam o Mar do Norte que fugiu de Bruges. Parem de me encher o saco com a vossa arte flamenga-italo-espanhola... Vocês são tão, tão grosseiros, que quando, nas noites de tempestade, os chineses cultos me perguntam de onde eu sou, eu respondo enfastiado e com lágrimas nos dentes “Eu sou do Luxemburgo”. E se às miúdas ousamos cantar em flamengo, elas desvanecem-se sonhando com pássaros cor-de-rosa e brancos...
E proíbo-vos de esperar, que alguma vez em Londres, debaixo de chuva, eu os possa confundir com ingleses... E proíbo-vos, em Nova Iorque ou em Milão, de arrotar senão em flamengo, meus senhores! Vocês não terão um ar de parvos, verdadeiramente parvos, mas eu recuso-me a dizer que me estou nas tintas para isso... E eu proíbo-vos de obrigar as nossas crianças, que não vos fizeram nada, a ladrar em flamengo... E se os meus irmãos se calam, tanto pior para a Flandres.
Eu canto, insisto e assino... O meu nome é Jacques Brel...
segunda-feira, 1 de março de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
GRAND JACQUES (C'EST TROP FACILE)
Jacques Brel tinha como objectivo, em cada actuação que fazia, dar-se ao público, em corpo inteiro e com toda a sinceridade. Segundo dizia ele, a “sinceridade não é uma qualidade. Não se chama sincero a alguém só porque o parece. É como dizer de um tipo perfeitamente idiota, que é idiota mas tem bom coração…” Portanto, esta sinceridade, esta verdade, tanto na vida privada como na pública, foi sempre a sua grande imagem de marca. Na canção Grand Jacques, o cantor fala consigo próprio e questiona-se sobre os seus valores e ideais. Esta canção foi gravada em 1953.
Grand Jacques (c'est trop facile)
É muito fácil entrar nas igrejas e despejar cá para fora toda a porcaria perante um padre, que na penumbra, fecha os olhos para melhor nos perdoar...
Portanto, cala-te Grand Jacques, que sabes tu do Bom Deus?... Um cântico, uma imagem. Tu não conheces nada de melhor...
É muito fácil quando as guerras acabam a gente pôr-se a gritar que esta foi a última. Amigo burguês fazes-me inveja...Tu não olhas para os teus cemitérios?
Portanto, cala-te Grand Jacques, deixa-os lá gritar, deixa-os chorar de alegria… Tu, tu que nem sequer foste soldado...
É muito fácil quando um amor morre, partido em dois, por ter sido demasiado vergado, e depois ir chorar como os homens choram, como se o amor durasse uma eternidade...
Portanto, cala-te Grand Jacques, que conheces tu do amor? Uns olhos azuis, uns cabelos ao vento, tu não conheces nada disto...
Portanto, diz Grand Jacques, diz muitas vezes que é muito fácil, muito fácil fazer de conta.
Grand Jacques (c'est trop facile)
É muito fácil entrar nas igrejas e despejar cá para fora toda a porcaria perante um padre, que na penumbra, fecha os olhos para melhor nos perdoar...
Portanto, cala-te Grand Jacques, que sabes tu do Bom Deus?... Um cântico, uma imagem. Tu não conheces nada de melhor...
É muito fácil quando as guerras acabam a gente pôr-se a gritar que esta foi a última. Amigo burguês fazes-me inveja...Tu não olhas para os teus cemitérios?
Portanto, cala-te Grand Jacques, deixa-os lá gritar, deixa-os chorar de alegria… Tu, tu que nem sequer foste soldado...
É muito fácil quando um amor morre, partido em dois, por ter sido demasiado vergado, e depois ir chorar como os homens choram, como se o amor durasse uma eternidade...
Portanto, cala-te Grand Jacques, que conheces tu do amor? Uns olhos azuis, uns cabelos ao vento, tu não conheces nada disto...
Portanto, diz Grand Jacques, diz muitas vezes que é muito fácil, muito fácil fazer de conta.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
JOSÉ CORREA

Em Outubro de 2009 foi editado um belo livro de Banda Desenhada dedicado a JACQUES BREL.
O seu autor é JOSÉ CORREA, nascido em 1950, em Marrocos, de pais portugueses.
É um apaixonado pela literatura e pela música e tem na sua vasta obra livros dedicados a Marilyn Monroe, Léo Ferré, George Brassens, Eric Satie, Céline, etc,etc. Além de livros tem numerosas exposições no seu currículo. Ele tem exposto as suas aguarelas e ilustrações por toda a França, e também em São Francisco, Osaka, Londres, Berlim...
O livro, das ÉDITIONS BD MUSIC, além das ilustrações sobre a obra de Brel, tem uma biografia do cantor e traz dois CDs com as primeiras gravações feitas entre 1953 e 1958. Cada CD tem 19 canções.
E porque tenho falado aqui de Brel e o Cinema (BREL Actor) mostro um pequeno excerto do livro de José Correa, precisamente sobre o mesmo tema.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
LES COEURS TENDRES
Brel após deixar a vida dos palcos, continuou a gravar discos em estúdio e dedicou-se ao cinema. Participou em diversos filmes de 1967 a 1973. Realizou dois. Le Far west e Franz. Franz teve um óptimo acolhimento do público e da crítica. Porém, sempre insatisfeito consigo próprio, sempre à procura da perfeição, declarou que “gosto de fazer filmes mas dou-me a mim mesmo dez anos para me tornar um realizador aceitável. Mas, se um dia eu descobrir qual o segredo para fazer um filme de sucesso, paro de realizar filmes.”
Os corações sensíveis
Há quem tenha o coração tão grande que se pode lá entrar sem bater... Há quem tenha o coração tão grande que só se vê a metade... Outros têm o coração tão frágil que se pode partir com um dedo. Alguns têm o coração demasiado frágil para viver, como tu e eu, com os olhos cheios de flores, os olhos à flor do medo, o medo de perder a hora que nos leva a Paris...
Há quem tenha o coração tão sensível que lá repousam as aves... Há quem tenha o coração demasiado sensível, metade homem, metade anjo... Outros têm o coração tão vasto que andam sempre em viagem... Outros têm o coração demasiado vasto para se privarem de miragens... Têm os olhos cheios de flores, os olhos à flor do medo, o medo de perder a hora que os leva a Paris...
Há quem tenha o coração cá fora, e não pode senão oferecê-lo. Um coração de tal modo cá fora, que todos se servem dele... Aquele ali, tem o coração de fora, tão frágil, tão sensível, que malditas sejam as árvores mortas que não poderão de modo nenhum entendê-lo, cheio de flores nos olhos, os olhos à flor do medo, o medo de perder a hora que o leva a Paris...
A canção Les coeurs tendres, foi encomendada a Jacques Brel para o filme Um idiota em Paris, em 1967.
Os corações sensíveis
Há quem tenha o coração tão grande que se pode lá entrar sem bater... Há quem tenha o coração tão grande que só se vê a metade... Outros têm o coração tão frágil que se pode partir com um dedo. Alguns têm o coração demasiado frágil para viver, como tu e eu, com os olhos cheios de flores, os olhos à flor do medo, o medo de perder a hora que nos leva a Paris...
Há quem tenha o coração tão sensível que lá repousam as aves... Há quem tenha o coração demasiado sensível, metade homem, metade anjo... Outros têm o coração tão vasto que andam sempre em viagem... Outros têm o coração demasiado vasto para se privarem de miragens... Têm os olhos cheios de flores, os olhos à flor do medo, o medo de perder a hora que os leva a Paris...
Há quem tenha o coração cá fora, e não pode senão oferecê-lo. Um coração de tal modo cá fora, que todos se servem dele... Aquele ali, tem o coração de fora, tão frágil, tão sensível, que malditas sejam as árvores mortas que não poderão de modo nenhum entendê-lo, cheio de flores nos olhos, os olhos à flor do medo, o medo de perder a hora que o leva a Paris...
A canção Les coeurs tendres, foi encomendada a Jacques Brel para o filme Um idiota em Paris, em 1967.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
BREL actor (8)

LE BAR DE LA FOURCHE
Realização: Alain Levent
Argumento: Alain Levent, François Boyer, P.Dumarcay
Imagem: Alain Levent
Música: Jacques Brel
Montagm: Eric Pluet
Produção: SNC Production Dela
Duração: 85 min.
Estreia: 23/08/1972
Com Jacques Brel, Rosy Varte, Isabelle Huppert, Pierre-François Pistorio.
ARGUMENTO :
Vincent Van Horst é um verdadeiro estroina, um amante da liberdade, bebedor e mulherengo impenitente. Deixando uma Europa devastada pela guerra, no ano 1916, ele decidiu estabelecer-se no Canadá. Aí conta encontrar Maria, a única mulher que foi o seu verdadeiro amor. No caminho, ele faz amizade com Oliver, um tipo novo que só sonha com uma coisa: tomar parte na guerra na Europa. Chegado ao « Bar de la Fourche », dirigido por Maria, Vicent constata que ela envelheceu muito . Ele vinga-se do seu desapontamento nos braços da irreverente Annie, que é uma provocadora e que abertamente zomba dele. Ela chega a conseguir que Vincent e Olivier se batam num duelo por ela.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
À JEUN
Brel é o actor das suas canções. No palco ele faz viver os personagens dos seus textos. Os heróis e anti-heróis que ele inventa. Nesta canção À jeun, o personagem em cena é um viúvo que está a chegar a casa, bêbado, vindo do funeral da sua própria mulher. Ele cambaleia, soluça, e fala com a cama, e de tudo isto nos apercebemos escutando a voz do cantor. Somente escutando a sua voz.
Quem viu Jacques Brel ao vivo, no palco, jamais esqueceu as suas interpretações… Esta canção é de 1967.

EM JEJUM
Completamente em jejum, vocês dão comigo atrapalhado por não encontrar a minha cama... Vejo-a a recuar… Vejo-a a balançar… Piu piu piu piu, vem cá caminha... Se não vens ter comigo, olha que eu não vou ter contigo... Mas, ouve… “Quem não avança, recua”, diz o senhor Dupneu, um tipo entendido e que é chefe do contencioso...
Completamente em jejum, estou a chegar de uma bela festa... Esta manhã enterrei a minha Huguette... Fingi que chorei só para não estragar a festa. Estavam todos de negro, os vizinhos e os amigos... Naquela feira só eu é que estava com um grão na asa... Estavam lá a minha sogra e o meu sogro... Alguém viu a Mirza? Ah, e estava também o senhor Dupneu, que é chefe do contencioso...
Completamente em jejum, ao enterrar a minha mulher, enterrei, sobretudo, a amante do André... Eu não sabia disto até esta manhã... E soube-o por um amigo do peito, que me contou que a sua irmã, enfim... Restam-me duas soluções... Ou esmurrar o André, ou arrastar a asa à mulher do André... Bom, mas o melhor ainda é ficar em casa e fazer o papel do feliz corno manso.... É isto que me aconselha o André... O André... André Dupneu que é o meu chefe de contencioso...
Quem viu Jacques Brel ao vivo, no palco, jamais esqueceu as suas interpretações… Esta canção é de 1967.

EM JEJUM
Completamente em jejum, vocês dão comigo atrapalhado por não encontrar a minha cama... Vejo-a a recuar… Vejo-a a balançar… Piu piu piu piu, vem cá caminha... Se não vens ter comigo, olha que eu não vou ter contigo... Mas, ouve… “Quem não avança, recua”, diz o senhor Dupneu, um tipo entendido e que é chefe do contencioso...
Completamente em jejum, estou a chegar de uma bela festa... Esta manhã enterrei a minha Huguette... Fingi que chorei só para não estragar a festa. Estavam todos de negro, os vizinhos e os amigos... Naquela feira só eu é que estava com um grão na asa... Estavam lá a minha sogra e o meu sogro... Alguém viu a Mirza? Ah, e estava também o senhor Dupneu, que é chefe do contencioso...
Completamente em jejum, ao enterrar a minha mulher, enterrei, sobretudo, a amante do André... Eu não sabia disto até esta manhã... E soube-o por um amigo do peito, que me contou que a sua irmã, enfim... Restam-me duas soluções... Ou esmurrar o André, ou arrastar a asa à mulher do André... Bom, mas o melhor ainda é ficar em casa e fazer o papel do feliz corno manso.... É isto que me aconselha o André... O André... André Dupneu que é o meu chefe de contencioso...
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
TU LEUR DIRAS...

Jacques Brel conheceu MADDLY BAMY na rodagem do filme L’Aventure c’est l’aventure, em 1971. Em 1974 Maddly abandona a sua carreira de actriz e bailarina e acompanha Brel na sua viagem marítima a bordo do Askoy. Devido à sua doença o cantor decide interromper a volta ao mundo e vai para Hiva Oa, ilha do arquipélago das Marquesas, em pleno Oceano Pacífico, onde viverá os seus últimos 4 anos de vida.
Em 1999 Maddly publicou um livro de memórias intitulado TU LEUR DIRAS, edições Fixot. Neste livro, na página 77, Brel fala assim da sua passagem pela Horta, em Setembo de 1974:
“... Se eu estou aqui (Ilhas Marquesas) é para ter paz. Aqui eu tenho paz. Sou feliz. Se não pudesse viver aqui gostaria de viver nos Açores...”
“... os Açores são portugueses, as ilhas formam um arquipélago em pleno Atlântico. Nós estivemos na Horta, capital da ilha do Faial. São ilhas vulcânicas, a vida é rude, difícil, mas as pessoas são gentis. Infelizmente falam português e eu só gosto do francês. Mas são ilhas de uma grande beleza. Pode-se viver as quatro estações do ano num só dia. De manhã é o orvalho da Primavera, temos vontade de passear pela frescura do tempo. Ao meio-dia é pleno Verão e come-se nos terraços. Chega o Outono com o meio da tarde, as mulheres põem os seus xailes. E a noite é o Inverno debaixo de dois cobertores. Não se admirem de ver neve cair sobre o vulcão.
Mas os Açores estão demasiado perto da França...”
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