segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

L'HOMME ET LA MER (2)

Dr.Decq Mota

Transcrevo hoje mais uma passagem do livro JACQUES BREL L’HOMME ET LA MER onde Prisca Parrish fala dos dias em que Jacques adoeceu e foi visto a bordo do Askoy por um médico local.
O médico local era o Dr.DECQ MOTA e deste encontro falei aqui neste blog no dia 6 de Novembro de 2009.
As “lembranças tristes” referidas no primeiro parágrafo deste pequeno relato têm a ver com a morte de Jojo. Brel tinha acabado de regressar à Horta após ter assistido ao funeral do amigo, em Paris.

“... Os dias esgotavam-se na alegria, na qual se misturavam por vezes as lembranças tristes que Jacques se esforçava por esquecer. A vida é bela, o mundo pertence aos vivos e nós partiremos para dar a volta ao mundo.
Uma manhã, Maddly diz-nos que Jacques não se sente bem. Que é que se passa ? pergunta Vic. Ele apanhou frio e está cheio de febre, está a tiritar e não se quer levantar, responde Maddly. Vic vai ver Brel. Efectivamente, ele está mesmo mal.
Vic vai chamar um médico local que chega ao Askoy na parte da tarde. Diagnóstico: Uma gripe muito forte. Passa uma receita de vitaminas e antibióticos e vai-se embora.
Jacques Brel fica deitado durante dois dias tomando escrupulosamente os remédios , sempre resmungando: Que grande porcaria! A gripe muito forte preocupou-nos a todos mas ao terceiro dia Jacques levantou-se. Em roupão de quarto, sobre o convés, brincando, ele gritou: Afinal só me faltava espirrar!”

domingo, 14 de fevereiro de 2010

L'HOMME ET LA MER



Em 1974 quando Jacques Brel esteve na Horta, no seu iate Askoy, conheceu Prisca Parrish, companheira de outro velejador – Vic – que também estava a caminho do Pacífico, no iate Kalais. Tal foi a impressão causada pelo contacto com Brel (o cantor, o velejador, o homem) que Prisca escreveu um livro contando a história desse contacto e dessa viagem marítima. O livro chama-se JACQUES BREL, L’HOMME ET LA MER, e é da editora PLON, Paris.
Consegui adquiri-lo há dias num “e-alfarrabista” e passo a transcrever algumas passagens sobre o Faial e as suas gentes vistas por uma francesa... há 36 anos.

“...e nos dias seguintes demos grandes passeios pela ilha. Um amigo local conduziu-nos em automóvel a um local onde tinha havido uma forte erupção vulcânica. O solo está coberto de cinza negra. Caminhámos sobre esse chão do fim do mundo com a impressão que iria abater a todo o momento debaixo dos nossos pés. Um farol, solitário nestas terras, está meio enterrado como que envergonhado de se encontrar tão degradado. O silêncio é total, angustiante. A algumas centenas de metros da escarpa emerge uma ilha nua, coberta de lava seca. Os pássaros ousaram aproximar-se e espalharam as sementes do velho mundo para lá dispersar a vida.”
“...a ilha é rude, batida pelos ventos. Os terrenos pouco cultivados vêem-se aqui e ali à espera da próxima mudança, da próxima erupção vulcânica, que pode mudar tudo, destruir ou recriar. Os habitantes estão em trânsito depois de milénios nestas ilhas movediças. Eles são rudes mas hospitaleiros, acolhendo os visitantes com curiosidade e calor. Mistura bizarra.”
“... se sim, então os habitantes dos Açores não têm raízes. As suas ilhas são demasiado movediças. Um vulcão está precisamente em frente à Horta, o seu pico está quase sempre coberto por um manto branco. Terra instável feita de tempestades e de anticiclones, os Açores são um mundo à parte, precário e acolhedor.”

sábado, 13 de fevereiro de 2010

AMSTERDAM

AMSTERDAM , talvez a canção mais famosa de Jacques Brel, depois de Ne me quittes pas, foi gravada uma única vez em 1954, numa noite de Outubro. No Olympia de Paris. E porquê? Porque ele não gostava da canção.
Anos mais tarde o seu amigo e orquestrador François Rauber explicou as razões que levavam Brel a não gostar da canção. Especialmente não lhe agradava a tautologia dos primeiros versos da primeira estrofe “Dans le port d’Amsterdam y a des marins qui chantent, les rêves qui les hantent, au large d’Amsterdam” ou então o exagero “et ils pissent comme je pleure, sur les femmes infidèles”. Também a forma da canção, em quatro estrofes sem refrão, que lhe parecia um pouco primária.
Por outro lado, AMSTERDAM estava marcada por uma espécie de pecado original que é ter sido uma canção sem a menor importância. Brel decidiu então que no seu regresso ao Olympia ela seria a canção de abertura do concerto. Quem está dentro deste mundo do espectáculo sabe que a canção de abertura é uma canção sacrificada: O técnico de som aproveita para acertar os volumes, os músicos aproveitam para “se fazer ao instrumento” e sobretudo o público VÊ mais do que OUVE o cantor, na primeira canção. “Desta maneira, vai passar despercebida” terá dito Brel.
Contrariamente aos outros artistas da época, que reservavam as suas novas canções para estrear em Paris, Brel lança as suas não importa onde, não importa quando, desde que estejam prontas. Como dava mais de 200 concertos por ano, com direito apenas a algumas semanas de férias, era em digressãoque ele escrevia, ou no camarim ou no quarto do hotel. Nos ensaios, antes dum especáculo, aproveitava para compor a música. No palco com o seu pianista Gérard Jouannest ou às vezes com o acordeonista Jean Corti , ele dizia “toca-me aí uma marcha... toca-me aí um tango canalha...” e ele cantava o que tinha nuns rascunhos, às vezes apenas umas linhas. Quando saía uma pequena linha melódica dizia “já está, isto está a desabrochar”. Começavam então a trabalhar a canção. No ensaio do espectáculo seguinte recomeçavam. Brel escrevia mais estrofes. Apurava-se a melodia. Reescreviam-se outras estrofes e um dia quando ele achava que estava tudo pronto, dizia “Pessoal, esta já está. Esta noite vamos lançá-la”.
AMSTERDAM foi composta desta maneira e ficou pronta imediatamente antes do espectáculo do Olympia. Nunca foi feita uma gravação em estúdio.
(Adaptação de um texto da autoria de Compagnie Brel Trente ans déjà)

Amesterdão (1964)

No Porto de Amesterdão há marinheiros que cantam os sonhos que os atormentam ao largo de Amesterdão, há marinheiros que dormem como estandartes ao longo de muralhas sombrias. No Porto de Amesterdão há marinheiros que morrem às primeiras luzes do dia, cheios de cerveja e de dramas, e há marinheiros que nascem no calor espesso dos langores do oceano.

No Porto de Amesterdão há marinheiros que comem caldeiradas de peixe, sobre toalhas muito brancas. Exibem dentes prontos a despedaçar fortunas, capazes de abocanhar a lua e estraçalhar enxárcias. E sente-se o cheiro a bacalhau até dentro das batatas fritas que as suas mãos grandes não se cansam de pedir. Depois levantam-se, rindo numa grande algazarra, apertam as braguilhas e saem arrotando...

No Porto de Amesterdão há marinheiros que dançam esfregando a pança na pança das mulheres. E giram, e dançam, como sóis escarrados ao som dilacerado de um acordeão rançoso, e torcem o pescoço para melhor se ouvirem rir, até que de repente o acordeão se cala, e então, com um gesto grave e com um olhar altivo, eles invocam os seus antepassados, já em plena luz do dia...

No Porto de Amesterdão há marinheiros que bebem, e que bebem, e tornam a beber, e que bebem mais uma vez. Bebem à saúde das putas de Amesterdão, de Hamburgo, e doutros portos, por esse mundo... Enfim, bebem à saúde das mulheres que lhes oferecem os seus corpos lindos, que lhes oferecem a sua virtude por uma moeda de ouro. E quando estão bem bebidos, empinam o nariz, assoam-se nas estrelas, e mijam, como eu choro, sobre as mulheres infiéis. No Porto de Amesterdão...


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

MADELEINE



Para Brel o contacto directo em palco, com os seus músicos era imprescidível. Ele lamentava os artistas do play-back dizendo que eles se deixavam vender como os dentífricos. Jacques Brel, no estúdio de gravação, juntamente com a orquestra, fazia duas ou três gravações, não mais. Por fim ia para a cabina de som e com o seu maestro Rauber e com o seu pianista Jouannest escolhiam a melhor gravação.
Jacques Brel foi dos poucos cantores que teve a honra de ser aplaudido pelos músicos da orquestra, durante as gravações. Que se saiba só Sarah Vaughan teve também este privilégio.

MADALENA (1961)
Esta noite espero a Madalena. Trouxe uns lilases, aliás, todas as semanas trago lilases... Ela gosta tanto... Tomaremos o eléctrico trinta e três para ir comer umas batatas fritas ao Eugénio, ela gosta tanto... A Madalena é o meu Natal, a minha América, mesmo que seja boa de demais para mim, como diz o primo Joel... Mas, esta noite, espero a Madalena, iremos ao cinema e direi muitas vezes que a amo… Ela gosta tanto... Ela é tão bonita, ela é... Ela é... Tudo isso... Ela é toda a minha vida, a Madalena, que eu espero...

Esta noite espero a Madalena, mas, já chove sobre os meus lilases... Chove como todas as semanas e a Madalena que não chega! Já é tarde para o eléctrico trinta e três... Já é tarde para as batatas fritas do Eugénio, e a Madalena que não chega... Ela é o meu horizonte, é a minha América, mesmo que seja boa demais para mim, como diz o seu primo Gastão... Mas, esta noite espero a Madalena e só me resta o cinema... Vou dizer-lhe muitas vezes que a amo! Ela gosta tanto... Ela é toda a minha vida, a Madalena, que nunca mais chega...

Esta noite esperava a Madalena, mas já deitei fora os lilases, aliás, deito-os fora todas as semanas... A Madalena não virá... O cinema já se foi e eu fico-me com os meus “amo-te, amo-te”... A Madalena já não virá... Ela é a minha esperança, a minha América, e certamente que ela é boa demais para mim, como diz o seu primo Gaspar... Esta noite esperava a Madalena, e olha, o último eléctrico já partiu e o Eugénio deve estar a fechar... Ela já não vem... A Madalena que nunca mais chega...

Mas, amanhã, amanhã esperarei a Madalena... Trarei os meus lilases. Todas as semanas trago lilases. Ela gosta tanto... Vamos apanhar o eléctrico trinta e três para comer umas batatas fritas no Eugénio... Ela vai gostar tanto... A Madalena é a minha esperança, a minha América. Não me importa que ela seja boa demais para mim, como diz o seu primo Gaspar... Amanhã esperarei a Madalena, iremos ao cinema e eu vou dizer-lhe muitas vezes que a amo... Ela vai gostar tanto...



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

CE SOIR, J'ATTENDS...



Na grande Salle Municipale de Mamers, depois de amanhã, 12 de Fevereiro às 20h30, mais um espectáculo com canções de JACQUES BREL. CE SOIR, J'ATTENDS MADELEINE
Interpretado ao vivo por um pianista, JIMMY TILLIER, e uma acordeonista, OPHÉLIE COLLIN, este espectáculo põe em cena as confidências de um homem, na voz de GUILLAUME NOCTURNE, e dos seus males de amor através das canções de Jacques Brel.
A história: “No Café Alcazar, um homem espera a chegada da sua amada cantando pequenos episódios da sua vida… Esta noite espera a Madalena. O público torna-se confidente de um dia entre tantos outros.
Mas a Madalena não chega. Ele revela os seus desejos e as suas desilusões… A Madalena já não virá. E porque será?”

"Não hesite em vir saborear as confidências de um homem apaixonado… e sobretudo redescobrir o reportório de Jacques Brel onde se misturam na perfeição a poesia e o teatro" recomenda o Programa do espectáculo.

Este espectáculo será apresentado no Festival d'Avignon no próximo Verão.





terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A PROPOS DE BREL



HOJE,9 DE FEVEREIRO, EMISSÃO ESPECIAL A PROPÓSITO DE BREL...

É o fim das 44 crónicas “a propósito de Brel”, difundidas todos os dias desde Dezembro último na Thème Radio. No seguimento do sucesso destas crónicas, GUY CAPET, receberá o seu autor e os membros da Compagnie Brel Trente Ans Déjà nesta emissão em directo dos estúdios da Rádio. Nesta ocasião a antena estará aberta: o ouvinte pode telefonar, conversar com os convidados, falar de Brel, pedir uma determinada canção,etc. Os inéditos de Brel serão também ouvidos no programa, bem como algumas surpresas…
Reserve a sua noite !
Telefone: 011 33 3 25 75 30 30
O programa pode ser ouvido em FM 90.3

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

DU RIRE AUX LARMES



Das Edições Jacques Brel recebi a informação sobre mais um espectáculo de homenagem ao Grand Jacques.
BERNARD GIORDAN vai estar no Teatro Francis GAG, Nice, Domingo 14 de Fevereiro, com o espectáculo “Do Riso às Lágrimas”.
O evento pretende angariar fundos para financiar a operação ao coração de um bebé de 14 meses (NALYAN), que sofre de uma cardiopatia congénita.