sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (4)

Carta a Jacques Brel (conclusão)

Aqui a cidade da Horta também já não é o que era. Três décadas depois, temos mais automóveis e menos gente. Mais funcionários públicos e menos povo. Mais bancos e menos casas de espectáculo. Mais crédito e menos dinheiro... Só o Pico à nossa frente é que continua a ser infinitamente belo!
E temos agora uma Marina onde cabem todos os iates do mundo. O nosso porto continua abrigado e nós continuamos a ser hospitaleiros e cosmopolitas. Só que, “hélas”, a nossa hospitalidadezinha é uma forma de escondermos o nosso provincianismo paroquial... E o nosso cosmopolitismo rima com o nosso ruralismo pequeno-burguês. À bon entendeur...
E no entanto, existimos e resistimos nestas ilhas que te encantaram. Dos amigos que por cá fizeste, só o Othon Silveira e o José Azevedo (o “Peter”) é que infelizmente já não pertencem ao mundo dos vivos. Os restantes estão bem, na graça do “Bon Dieu”. O dr. Decq Mota, se bem que recolhido, é o mesmo “gentil homme” que tão bem conheceste. O filho do “Peter” (que era um fedelho quando cá estiveste) é hoje um homem de barba rija e está a imprimir uma nova dinâmica empresarial ao bom nome deste Café. O João Carlos Fraga continua a ser aquela paz de alma que conhece todos os barcos e todos os portos do mundo.
Tenho tido boas notícias da tua filha France, que, há 35 anos impressionou de tal forma o nosso amigo Jorge Dinis, que ele ainda hoje se lembra de como ela andava vestida, imagina... Nós, ilhéus, somos assim. O que de bom vem de fora não nos escapa.
Para sempre guardarei o teu retrato no fundo do meu espelho.
Adeus, meu doce, meu terno, meu maravilhoso amigo!
Toma juízo, não fumes tanto e volta depressa! Um grande abraço de mar!

Victor Rui Dores


Horta (anos 60)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (3)

Carta a Jacques Brel (continuação)

Fazes-nos falta, Jacques Brel. Por isso queremos manter-te vivo a cantar as tuas canções. Tu próprio o disseste: “A canção é um acto de amor, um acto de ternura”.
Fazes-nos falta, porque andamos carenciados de sonho, de amor e de ternura.
Em vez disso, andamos para aqui, em banho-maria, a viver a vida pardacenta, entre o silêncio e a solidão. À espera de alguma coisa que nunca acontece. À espera de um aumento de ordenado e à espera de D. Sebastião no dorso de uma baleia. À espera de ver Deus na televisão e à espera das bem-aventuranças da União Europeia... Ou “aguardando um raiozinho de socialismo”, como escreveu, aqui há uns anos, o poeta Marcolino Candeias.
Ah, e se tu soubesses o que, musicalmente, por cá se passa... Se eu te falasse no “marketing” discográfico, no individualismo desenfreado, na ganância do lucro, tu não acreditarias. Se eu te dissesse que a música agora também serve para encher chouriços, ou que a qualidade deixou de interessar, ou que a maior parte dos cantores de hoje canta fora de tom, tu certamente mandavas-me passear. Se eu te referisse que a cultura deixou de ser um acto de espírito e de imaginação humana. Se eu te falasse da música “light” que por aí anda à solta... Ah, como ficarias desgostoso se soubesses que hoje, a nível planetário, andamos culturalmente colonizados pelos americanos e por outros imbecis contentinhos...
Quando cá estiveste, há 35 anos, a revolução de Abril ainda estava na rua. Chegámos a acreditar em manhãs radiosas, porque “foi bonita a festa, pá”, como cantou, do outro lado do mar, o nosso amigo Chico. Mas hoje, meu caro, vivemos de resignações televisivas e de outros futebóis e só queremos que “não nos falte o dinheiro para o bife”... (Lembras-te do Zeca Afonso?).
“Em Portugal o mal é ancestral”, escreveu um poeta português que muito te admirou e até copiou alguns dos teus versos: José Carlos Ary dos Santos. E houve até um cantor que, durante algum tempo, pretendeu ser o Brel português: Fernando Tordo… Mas a tua voz sempre foi única, exclusiva, inimitável.
(continua)

Horta (anos 60)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (2)

Carta a Jacques Brel (continuação)

A verdade é que sempre te admirei e não tenho problema nenhum em te considerar um génio! Porque foste um criador, não um imitador; um poeta, não um versejador. Fizeste da palavra uma arma de arremesso e da música um hino ao amor. Não cedeste, nem te vergaste a coisa nenhuma. Não transigiste com o que era fácil. Desafiaste os poderes. Minaste os políticos. Derrubaste muros de silêncio. Andaste, meu sacana, a brincar com a tropa e com a Igreja e com outras coisas sérias... Zombaste dos burgueses, irritaste os conservadores, gozaste “les flamandes”, inquietaste as senhoras de bem e deste porrada nos cretinos, nos imbecis e nos idiotas... E denunciaste a guerra, a intolerância e a hipocrisia dos homens. E lutaste sempre pela paz, pela liberdade e pela justiça.
Agora sei que o teu coração sangrou pelos infortúnios do mundo. Tu, o controverso, o arrebatado e, por vezes, o violento, fizeste da amizade um padrão de vida. A tua bondade, o teu altruísmo e a tua generosidade não tinham tamanho. Por isso cantaste a dor e a mágoa de todos nós. Cantaste o teu triste e pluvioso Pays bas, revisitaste a tua infância, rasgaste o peito com o Ne me quitte pas, dançaste o Tango fúnebre da tua morte anunciada e a Valse à mille temps da tua bulimia de viver.
Cá por mim não me importava nada de ter sido teu amigo. Para contigo acender cigarros na noite e ser, como tu, um “voyageur perdu”. Sim, daria tudo para viajar contigo para os portos de Amsterdam e do mundo inteiro. Festejar a vida e o amor! Conhecer uma ou outra mulher “belle et cruelle”. Ter-te a meu lado a beber quantidades industriais de cerveja e dedilhar na tua guitarra canções dos nossos 20 anos... Aprender contigo a rimar “tendresse” com “tristesse”, “putain” com “chagrin”, “nuage” com “voyage”, “frontiére” com “misére”...
Acima de tudo, gostaria de envelhecer contigo, meu bom Jacques, e, tal como tu, gritar aos quatro ventos: “Quand je serai vieux je serai insuportable”...
Ainda hoje, Brel, sinto uma grande emoção quando oiço a tua voz, tão viva como dantes. Ainda hoje te vejo como um trovador, um Quixote, um sonhador, um poeta! Um poeta com um coração imenso. Um poeta que interpretava a palavra certeira e o silêncio magoado, com gestos cénicos e dançados... E as tuas mãos, Brel, as tuas mãos enormes afagavam os versos e eram a raiva, a ironia, o sarcasmo, a ternura...

(continua)

Horta, Anos 60

terça-feira, 20 de outubro de 2009

CARTA A JACQUES BREL (1)

Do meu amigo Victor Rui Dores vou publicar uma carta, endereçada a Brel, nos 35 anos da passagem do cantor pela Horta. Dada a extensão da mesma vou reparti-la por 4 publicações.

Peter Café Sport, 5 de Outubro de 2009
Meu caro Jacques Brel

Neste espaço de todos os reencontros, sentado à mesa onde tu um dia cantaste, escrevo-te esta carta, com os olhos postos no “gin”, a sede na cerveja e a memória em ti. E isto porque fez este ano 35 anos que, a bordo do teu “Askoy”, aportaste à Horta acompanhado da tua filha France e da tua companheira Maddly.
Nessa altura, eu ainda não tinha fixado residência nesta cidade, senão, garanto-te, ter-te-ia aberto a porta da minha casa e o meu melhor whisky.
Acontece que tenho um amigo chamado Sérgio Luís, engenheiro, artista e teu admirador profundo, que de há muito buscava um pretexto para te homenagear. Que é como quem diz: reunir os amigos, beber uns copos e falarmos de ti, da tua vida, da coragem dos teus versos e da força da tua música.
A ideia concretizou-se. Após contactos estabelecidos com aqueles que, por estas paragens, te viram e te conheceram, indagámos lembranças, memórias e arquivos, reconstituímos os teus passos por esta ilha e, numa realização da RTP/AÇORES, levámos a cabo um trabalho intitulado Brel no porto da Horta.
Deixa-me que te diga que foi a partir dos versos das tuas canções que me iniciei na aprendizagem da língua francesa
Sabes, às vezes, tenho saudades tuas – eu que nunca te conheci. Mas porque tenho todos os teus discos, e porque vi todos os teus filmes, e porque colecciono todas as tuas fotos, e porque li todas as tuas entrevistas, tenho a impressão, meu caro Brel, que somos velhos amigos, se não mesmo “compagnons de route”...

(Continua)


Horta, anos 60

domingo, 18 de outubro de 2009

LE CAPORAL CASSE-POMPON

Brel viveu as consequências da segunda guerra mundial. Tinha ele 11 anos quando a Alemanha invadiu a Bélgica, em 10 de Maio de 1940. Até aos 16 anos conheceu a tragédia da ocupação. Nesta canção - Caporal casse-pompon - Brel faz a caricatura do velho militarão nazi reformado, que sonha regressar a Paris, não para chorar ou lamentar os tempos da ocupação, mas para voltar a desfilar à frente do seu pelotão. Brel, não suportava os alemães, para ele, os invasores bárbaros…

N. T.: A piada do segundo verso tem a ver com a invasão-relâmpago inventada pelos franceses mas usada pelos alemães para invadirem a França (a famosa blitzkrieg).


O CABO CACETEIRO(1962)
O meu amigo é um tipo enorme... Ama o trompete e o clarim, preferindo, ainda assim, o clarim, que afinal é um trompete fardado... O meu amigo é uma autoridade, e diz muitas vezes sem vaidade, que “é na espessura das cascas de batata que se vê a grandeza de uma nação...”
Portanto... Portanto, eu não percebo porque é que os seus camaradas lhe chamam o Cabo Caceteiro.

O meu amigo é um doce poeta. No seu jardim, quando chega o Verão, vemo-lo plantar metralhadorazinhas, ou cavar pequenas trincheiras... O meu amigo é um homem bem-humorado... Foi ele que encontrou esta piada que eu vos vou contar agora: “Dormimos na vossa casa, e apanhámo-vos bem!“
Portanto... Portanto, eu não percebo porque é que os seus camaradas lhe chamam o Cabo Caceteiro.

O meu amigo é um doce sonhador... Para ele, Paris é uma caserna, e Berlim um pequeno campo florido que vai de Moscovo à Província de Auvergne... O seu sonho é voltar a Paris na Primavera... Voltar a desfilar à frente do seu pelotão, cantando: “Baixa a bainha, Guidinha, senão beijo-te a bundinha!!! Ein !!! Zwei !!!”
Portanto... Portanto, nós não compreendemos porque é que os nossos amigos... Os FRRRANSÔZEN... Eles OUSAM... Eles OUSAM chamar-lhe Cabo Caceteiro... EIN!!! ZWEI!!!


sábado, 17 de outubro de 2009

JEAN-LUC TASSEL

Das Edições Jacques Brel recebi uma informação sobre mais um espectáculo dedicado a Brel. É impressionante como 30 anos após a sua morte os espectáculos e outros eventos de homenagem ao cantor se sucedam quase diariamente. Só prova que Brel continua vivo e a sua música continua actual.
Assim, em Outubro e Novembro, Jean-Luc Tassel apresentará o espectáculo "L'homme dans la cité" no Teatro Darius MILHAUD.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

La...La...La

“A morte é a justiça, a verdadeira justiça. Se a uso nas minhas canções é exactamente por que sendo a ideia mais absurda que conheço é a mais acessível a toda a gente…” disse Brel, um dia.
Brel, nos seus textos, recorre muitas vezes a trocadilhos e neologismos. No texto que publico hoje Brel inventa a palavra MORRIREI para dizer que irá morrer a rir...

La,la,la (1967)
Quando eu for velho serei insuportável. Excepto para a minha cama e para o meu pobre passado...
O meu cão estará morto e a minha barba será uma lástima... Todas as minhas galdérias me terão deixado e habitarei numa qualquer Bélgica que me vai insultar tanto, ou mais que agora, quando eu lhe cantar “Viva a república! Vivam os belgas... Merda para os flamenguentos...la... la...la...”

Serei abandonado, como um velho hospital, por todos os barrigudos da alta sociedade, e portanto, beberei sozinho, a minha pensão de cigarra... É preciso estar-se bem, logo que haja Verão. Apenas serei recebido pelos gatos do meu bairro, para o seu festim, para que não estejam treze à mesa... E aí, depois de um rato morto, subirei a uma cadeira para cantar “meus senhores no leito da marquesa eu é que era os oitenta caçadores...la...la...la...”

E quando chegar a hora, imbecil e fatal, onde parece que alguém nos vem chamar, insultarei o bófia clerical, inclinado sobre o meu corpo, como um lacaio do céu... E morrirei cercado de pândegos, dizendo-me que o Voltaire era giro, e que se há tipos que têm uma pena no chapéu há outros que usam a pena no traseiro... la...la...la...


(Os oitenta caçadores mencionados no texto referem-se a uma canção tradicional francesa que contava a história de uma marquesa que convidou oitenta caçadores para uma caçada, e no fim do dia foi para a cama com todos eles. Ao cabo de nove meses ela teve um filho que ela dizia ser filho de 80 caçadores).