segunda-feira, 28 de setembro de 2009

LE GAZ

O GÁS 1967

Tu moras na rua de La Madone, numa velha casa desengonçada, que se retorce e geme nas tábuas do soalho. Tem uma escada de caracol... A casa não é grande, não, mas tem bastante espaço... !!! Tu moras na rua de La Madone e eu, eu… Eu venho por causa do GÁS!

Tens um toucador cheio de Budas, as velas dançam no castiçal e cheira bem não há dúvida... Os tafetás inundam tudo e por todo o lado há fotografias tuas que dormitam à frente do espelho... Tens um toucador cheio de Budas, e eu, eu... Eu venho por causa do GÁS!

Tu tens um verdadeiro divã de rei, um verdadeiro divã de diva... Tens um vinho do Porto que trazes da Porta dos Lilases... Tens um cão pequenino e um gato muito grande... Tens uma grafonola que toca discos de jazz... Tu tens um verdadeiro divã de rei, e eu... Eu... Eu venho por causa do GÁS!

Tu tens uns seios como dois sóis, como frutos, como altares... Tu tens uns seios como dois espelhos, como frutos, como mel... Se tu os cobres, tudo fica negro. Se tu os descobres eu transformo-me em Pégaso... Tu tens uns seios como... Alamedas, e eu... E eu... Eu... Eu venho por causa do GÁS!

É verdade que em tua casa, está o canalizador, está o sacristão, está o carteiro, está o senhor doutor que faz o café e o notário que serve os licores... Está lá metade de um artilheiro, um poeta de Carpentras, estão lá também alguns chuis e até a mão da minha irmã*... E estão todos por causa do GÁS!!!

Venham todos à Rua de La Madone! A casa não é muito grande, não... Mas, tem bastante espaço... Venham todos à Rua de La Madone!!!
Não se esqueçam de dizer que vêm por causa do GÁS!!!


(*A mão da minha irmã: referência provável a uma canção muito popular do tempo da guerra da Argélia - fim dos anos ’50 - onde se cantava que as raparigas metiam a mão dentro das calças dos soldados Zuavos)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

BREL... 30 ans déjà !

Das Edições Jacques Brel recebi esta informação sobre
mais uma homenagem ao cantor...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

VOIR UN AMI PLEURER

VER UM AMIGO CHORAR
Esta é mais uma canção do último disco gravado por Jacques Brel em 1977. Brel estava auto-exilado nas Ilhas Marquesas, em pleno Oceano Pacífico. Gravou o disco com um imenso esforço uma vez que o cancro pulmonar não lhe permitia grandes cansaços físicos. Sem nunca perder a boa disposição, Brel chega a fazer graça com a sua própria doença e a certa altura , no meio de uma gravação, pára exausto e pergunta pelo microfone “viram por aí um pulmão?” …
Um ano depois Brel morria em Paris.

Com certeza que há as guerras da Irlanda e os lugarejos sem música...
Com certeza que em tudo isto há falta de afecto…e até, não há mais América...
Com certeza que o dinheiro não tem cheiro, mas nenhum cheiro vos chega ao nariz... Com certeza que caminhamos sobre as flores...
Mas, mas ver um amigo chorar...
Com certeza que temos as nossas derrotas, e depois a morte que aparece lá bem no fim. O corpo inclina já a cabeça, espantado por ainda estar de pé...
Com certeza que há as mulheres infiéis e os pássaros assassinados...
Com certeza que os nossos corações perdem as asas...
Mas, mas ver um amigo chorar...
É certo que há cidades consumidas por essas crianças de cinquenta anos e a nossa impotência para as ajudar... E os nossos amores que sofrem dos dentes...
É certo que o tempo voa demasiado depressa e esses comboios vão cheios de afogados... E a verdade que nos evita...
Mas, mas ver um amigo chorar...
É certo que os nossos espelhos são imparciais... Nem a coragem de se ser judeu, nem a elegância de se ser negro... Acreditamos que somos pavio e não passamos de sebo...
E todos esses homens que são nossos irmãos, já não nos deixam surpreendidos se por amor nos dilacerarem...
Mas, mas ver um amigo chorar


EM MEMÓRIA DO MEU AMIGO MANUEL FARIA DE CASTRO

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

ZANGRA

Zangra (1962)

O texto publicado hoje foi inspirado no romance de Dino Buzzati “Deserto dos Tártaros”, de 1940.
Brel exprime o seu desdém pelo militarismo e pela vida uniformizada, e revela uma certa nostalgia pelo heroísmo. É uma grande canção Breliana porque segue uma estrutura teatral: Cada estrofe é uma cena, ou um acto, da peça chamada “Zangra”.
De cena para cena a vida do herói vai queimando etapas até à morte, isto é, até ao cair do pano.

O meu nome é ZANGRA e sou tenente no Forte de Belonzio que domina a planície donde virá o inimigo que fará de mim um herói...
Enquanto espero por esse dia, aborreço-me muitas vezes, e então vou até à vila ver os rebanhos de raparigas... Mas, elas sonham com o amor e eu sonho com os meus cavalos...

O meu nome é ZANGRA e já sou capitão no Forte de Belonzio que domina a planície donde virá o inimigo que fará de mim um herói...
Enquanto espero por esse dia, aborreço-me muitas vezes, e então vou até à vila ver a jovem Consuelo... Mas, ela fala de amor e eu falo dos meus cavalos...

O meu nome é ZANGRA e agora sou o comandante do Forte de Belonzio que domina a planície donde virá o inimigo que fará de mim um herói...
Enquanto espero por esse dia, aborreço-me muitas vezes, e então vou até à vila e bebo um copo com D. Pedro. Ele bebe aos meus amores e eu bebo aos seus cavalos...

O meu nome é ZANGRA e sou um velho, velho coronel no Forte de Belonzio que domina a planície donde virá o inimigo que fará de mim um herói...
Enquanto espero por esse dia, aborreço-me muitas vezes, e então vou até à vila ver a viúva de D. Pedro. Finalmente falo de amor, mas... Ela fala dos meus cavalos...

O meu nome é ZANGRA. Já fui um velho, velho general... Deixei o forte de Belonzio que domina a planície... E agora, o inimigo está lá, e eu jamais serei HERÓI!



Em 1976 VALERIO ZURLINI realizou um filme baseado no livro de Buzzati IL DESERTO DEI TARTARI e tinha nos papeis principais: Vittorio Gassman, Giuliano Gemma, Helmut Griem, Philippe Noiret, Jacques Perrin, Francisco Rabal, Fernando Rey, Laurent Terzieff, Jean-Louis Trintignant, Max von Sydow.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

LE DIABLE (ça va)

A canção que publico hoje é das primeiras que foram escritas e gravadas por Jacques Brel, em 1953. Brel, ainda totalmente desconhecido vê, um ano depois, esta canção num disco da famosíssima Juliette Gréco. Apesar desta canção ter 56 anos repare-se na actualidade das palavras.

O DIABO (a coisa vai)
Prólogo:
Um dia o diabo veio à Terra, veio à Terra para vigiar os seus interesses...
O diabo viu tudo, o diabo ouviu tudo, e depois de tudo ter visto e de tudo ter ouvido, ele voltou para casa, lá em baixo...
E lá em baixo organizou um grande banquete, e no fim do banquete levantou-se e fez este discurso:

A coisa vai... Um pouco por todo o lado há fogos a iluminar a Terra... Os homens divertem-se como loucos nos perigosos jogos de guerra, a coisa vai... Os comboios descarrilam estrondosamente porque uns gajos cheios de ideais metem bombas nos carris, o que faz mortos bem originais, mortos sem confissão, confissões sem remissão, a coisa vai...
Nada se vende, mas tudo se compra. A honra e mesmo a virtude... Os Estados transformam-se, em segredo, em sociedades anónimas, a coisa vai... Os grandes sacam os dólares que vêm das terras do tio Sam e a Europa repõe em cena “O Avaro”, com um cenário de mil e novecentos... Isto faz os mortos da fome, e a fome das nações, a coisa vai...
Os homens já viram tanta coisa que ficaram com os olhos baços... E já nem se canta pelas ruas de Paris, a coisa vai... Chamam loucos aos honrados e palermas aos poetas, e nos jornais de todo o mundo, todos os pulhas têm a sua fotografia... Isto incomoda as pessoas honestas e diverte os desonestos... A coisa vai, a coisa vai....

domingo, 20 de setembro de 2009

LA CHANSON DE JACKY

A CANÇÃO DE JACKY
No palco, Brel canta, gesticula, transpira, muda de feição e de postura, conforme os textos vão exigindo… No intervalo das canções vai perto do piano e limpa o suor a um grande lenço. Um médico pesou Jacques Brel durante várias noites seguidas, antes e depois dos espectáculos, e chegou a registar diferenças de 800 gramas. O texto que hoje publico La chanson de Jacky, é um exemplo do que melhor Brel fazia em palco. A entrega total. Ao texto, à canção, ao espectáculo, ao público.

Mesmo que um dia em KNOKKE-LE-ZOUTE, eu me torne, como receio, cantor para mulheres acabadas... Mesmo que lhes cante a ”Canção do Bandido” com a voz bandoneante* de um argentino de Carcassone... Mesmo que me chamem António e me vejam queimar os últimos cartuchos em troca de uns presentinhos... “Minhas senhoras eu faço o que posso”... Mesmo que me empanturre de hidromel, para melhor falar de virilidade àquelas matronas enfeitadas como árvores de Natal... Eu sei que dentro da minha bebedeira com elefantes cor-de-rosa, todas as noites, eu cantarei a minha canção melancólica, aquela dos tempos em que eu me chamava Jacky...
Gostava de ser por uma hora, uma hora somente, uma hora de vez em quando, belo, belo, e imbecil ao mesmo tempo!

Mesmo que um dia em Macau, eu me torne dono de um casino, cercado de mulheres langorosas... Mesmo que deixe de ser cantor, para me tornar “Mestre Cantor”, e que sejam os outros a cantar... Mesmo que me chamem “Le beau Serge”, e que venda barcos de ópio e de whisky de 100 anos, e verdadeiras bichas e falsas virgens... Mesmo que tenha um Banco em cada dedo, e um dedo em cada país e cada país seja meu... Eu sei que mesmo assim, cada noite, sozinho, no fundo da minha sala de fumo, para um público de velhos chineses eu cantarei a minha canção, aquela do tempo em que me chamava Jacky...
Gostava de ser por uma hora, uma hora somente, uma hora de vez em quando, belo, belo, e imbecil ao mesmo tempo!

Mesmo que um dia no paraíso, para minha surpresa, eu me torne cantor para mulheres com asas brancas. Mesmo que eu lhes cante “aleluia”, lamentando o tempo lá em baixo, onde não era Domingo todos os dias... Mesmo que me chamem Deus pai, aquele que está na Lista entre o Deus dará e o Deus te perdoe. Mesmo que deixe crescer a barba e, como o bom rapaz de sempre, rebente o coração e o espírito puro, a querer consolar os homens, sei que mesmo assim, todas as noites ouvirei no meu paraíso, os anjos, os santos e Lucifer a cantarem-me a minha última canção, aquela do tempo em que eu ma chamava Jacky...
Gostava de ser por uma hora, uma hora somente, uma hora de vez em quando, belo, belo e imbecil ao mesmo tempo!


sábado, 19 de setembro de 2009

BREL NA ILHA DO FAIAL - 1974

Fez ontem, dia 18, 35 anos que Brel deixou o porto da Horta com rumo à Madeira. Tinha chegado à ilha do Faial no dia 1 de Setembro a bordo do Askoy, na companhia da filha France e da amiga Maddly.
Dias depois recebeu a notícia da morte do seu amigo Jojo e regressou a Paris de avião, via Ilha Terceira, deixando o barco ao cuidado da filha e da amiga. Regressou ao Faial a bordo de um Jet Lear, propriedade de um milionário suíço que lhe deu boleia para os Açores.

A notícia que se segue vinha publicada no diário local “O Telégrafo”, de 17 de Setembro, e é bastante confusa, dado o pouco conhecimento que se tinha de Jacques Brel por estas paragens.